Memorabilia de quadrinhos no Brasil

Memorabilia de quadrinhos no Brasil

ou

Itens colecionáveis relacionados ao mundo dos quadrinhos,

amizades e nostalgia

Prelúdio

Posso estar enganado, mas acredito que os quadrinhos fazem parte da infância de todas as crianças – ou, talvez mais propriamente, de que o gosto pelos quadrinhos nasce na infância. Desde seu surgimento, na virada do século XX, com maior ênfase durante a expansão da chamada ‘cultura de massas’, durante as décadas de 40 a 60, e, em nossos dias, cada vez mais propriamente como uma ferramenta de alfabetização, os quadrinhos atraem as crianças com suas cores vibrantes e as estimulam a aprender a ler para poderem ‘decifrar’ seus balõezinhos. É certo que muitas pessoas vêm a se apaixonar pelos quadrinhos na idade adulta – mas acredito realmente que a maior parte dos leitores de quadrinhos foram cativados desde cedo, preservando ao longo dos anos o gosto pela nona arte.

 

Em busca do tempo perdido

A obra Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, se estende por 7 livros e quase quatro mil páginas – em um profundo, criativo e inebriante mergulho no passado do narrador. Escrita e revisada por mais de uma década, ela não narra exatamente uma vida extraordinária – mas demonstra, talvez secundariamente, como a existência humana é ao mesmo tempo extremamente complexa, ligeiramente banal e inacreditavelmente rica em detalhes, constituindo-se assim, sempre, em uma ímpar experiência extraordinária. Ilustra isso, perfeitamente bem, o ponto de partida de toda a narrativa: o mergulhar de uma madeleine, um bolinho típico francês, em uma xícara de chá. De maneira completamente inesperada, o autor é invadido por um “prazer delicioso, isolado, sem a noção de sua causa. Rapidamente se me tornaram indiferentes às vicissitudes da minha vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, da mesma forma como opera o amor, enchendo-me de uma essência preciosa”. De momento ele não pôde compreender o que se passava – mas pouco depois ele conseguiu perceber que a madeleine o remetera à infância, desenrolando todo um turbilhão de memórias que viriam a preencher páginas e páginas e se tornar um dos maiores romances do século XX.

[sobre a epifania de Proust, aqui o leitor encontrará mais alguns trechos incríveis e elucidativos]

[Em busca do tempo perdido, a obra imortal de Marcel Proust tem sido vertida para os quadrinhos – e a Editora Zahar já lançou 6 volumes em território nacional]

I

   De tempos em tempos eu me sento diante da minha coleção de HQs, corto os itens duplicados, tento organizar e fazer uma revisão geral – mas, PRINCIPALMENTE, enfrento a questão do espaço. Sempre tenho mais coisas do que posso guardar e, desse modo, recentemente precisei me desfazer de um monte de coisas – dentre elas, uma caixa com cards antigos, fundamentalmente da coleção Marvel Masterpieces, de 1994, mas também alguns cards avulsos de uma coleção do Homem Aranha, alguns poucos da DC e, talvez mais interessantes, alguns cards da coleção da Vertigo (também de 1994). Coloquei muitas HQ’s à venda – mas sem saber o que fazer com os cards, resolvi presentear meu grande amigo João Cláudio, que agradeceu a surpresa dizendo algo muito verdadeiro: no Brasil, ainda não existe um mercado para a memorabilia de quadrinhos.

Em resposta ao comentário do meu amigo, minha mente processou diversos flashes: os infinitos quadrinhos que já pesquisei no Ebay e no 2742344Mercado Livre, as camisetas antigas (algumas da década de 80!), as miniaturas, os cards e as velharias, em geral – mas também livros, livros justamente compilando estes materiais antigos! De saída me veio à mente o fantástico The full-color Guide to Marvel Silver Age Collectibles – from M.M.M.S. to Marvelmania, de J. Ballman – mas também alguns lançamentos notáveis da série museum-in-a-book, como The Marvel Vault e sua contrapartida, The DC Vault [ver nota I].

 

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[os livros da série museum-in-a-book contam a história das editoras e trazem réplicas de itens colecionáveis notáveis – no caso da Marvel temos o convite de casamento do Homem Aranha e, acreditem ou não, uma edição ‘prêmio’ acerca do ‘troféu caça-piolho’, que de tempos em tempos era mencionado pela Ed. Abril mas nunca publicado em território nacional; no caso da DC, temos um poster simplesmente incrível, algumas réplicas de rascunhos extremamente realistas e o kit de boas vindas ao Clube da Sociedade da Justiça – um item de 1943!]

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Ler ou ter nas mãos um livro sobre itens colecionáveis certamente não é a mesma coisa que ter os itens – mas lá fora, como aqui, existe uma quantidade tão grande de itens antigos que simplesmente vir a saber que eles existem é uma experiência mágica! Mais do que isso: para colecionadores, é como encontrar um mapa do tesouro – uma chama se acende dentro de nós e uma verdadeira ‘caçada’ começa! Estes livros/catálogos nos  colocam em contato com materiais que nunca teríamos acesso de outra maneira, não apenas resgatando e preservando estes micro-artefatos do passado como propiciando grandes momentos de felicidade, seja para aqueles que desse modo conseguem obter um item saudoso do passado, seja para os mais novos que se maravilham com as ‘novidades antigas’ de outros tempos. Podemos dizer, ainda, que tais livros colaboram para uma certa ‘economia cultural’ – economia que, no caso brasileiro, ainda está se estruturando, como pontuei no início.

Embora isso possa soar paradoxal, o mundo dos quadrinhos  é ao mesmo tempo muito vasto e rarefeito – enquanto entidade abstrata, podemos dizer que existem toneladas e toneladas de revistas em quadrinhos, mas particularmente cada título tem um número limitados de exemplares, potencialmente menor à medida que mais antigo. Via de regra, HQs da atualidade e das últimas três décadas são muito mais fáceis de se encontrar do que publicações das décadas anteriores – e as primeiras publicações em solo nacional, das décadas de 40 e 50, são indescritivelmente raras. Uma vez que estamos dizendo que os gibis, digamos assim, os atores principais do mundo das memorabilias, têm uma quantidade limitada de exemplares, não deve ser difícil imaginar que os brindes, acessórios quase sempre soltos, existem em uma magnitude menor – e portanto podem ser considerados itens muito mais raros.

Sinto-me à vontade para dizer que não existe um mercado estruturado de memorabilia no Brasil porque venho vasculhando a web há muito tempo; no Facebook, em particular, tenho entrado em todos os grupos possíveis de velharias – e nunca encontrei, em território BR, uma page/grupo dedicada à cards ou à pôsteres antigos, por exemplo. No que diz respeito aos quadrinhos, no entanto, devo admitir que existem algumas lojas especializadas, existe uma boa oferta de itens no Mercado Livre mas, sobretudo, existem alguns grupos no Facebook que são simplesmente fantásticos – em pouco mais de 4 meses encontrei verdadeiras preciosidades à venda! Lentamente, uma ideia começou a tomar forma em minha mente.

II

   Embora eu leia quadrinhos em geral há muitos anos, devo dizer que sempre me dediquei mais aos quadrinhos de super heróis – e que meus conhecimentos, desse modo, são maiores acerca deste ramo de publicações. Dito isto, foi uma surpresa, no mês de setembro, me deparar com uma verdadeira enxurrada de brindes do universo Disney na page Mania Comics – Leilões Temáticos, que colocou à venda uma pequena infinidade de HQs da Disney com os brindes originais encartados: fichas de personagens, mini-posteres, marcadores de páginas, figurinhas de diversas épocas (e inclusive de diferentes coleções) e até mesmo band-aids!

Passei a me dar conta de que o Universo Disney, bem como o Universo da Turma da Mônica, para não falar em vários outros universos que passaram a ser ressignificados deste ponto em diante, guardam grandes pequenos tesouros nas dobras do passado – pequenos tesouros que, inclusive, já passaram pelas minhas mãos: quando pequeno eu amava muito uma edição especial do Tio Patinhas, que trouxe uma sonhada moedinha nº 1 – bem como uma HQ do Mickey, cujos detalhes maiores já haviam sido cobertos pelas brumas do esquecimento, mas que me presenteou com um lindo marca-páginas. Qual foi o destino destes itens, em minha trajetória pessoal, eu não sei – mas basta que vocês mesmos se lembrem das inúmeras coisas queridas que facilmente se perderam em suas respectivas infâncias…

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Durante o leilão de setembro eu não consegui faturar nada – mas tomei contato com a edição do Mickey que trazia o marcador de páginas da minha infância. Foi um ponto de partida que me estimulou a ficar atento – e agora no mês de novembro, durante os novos leilões, eu finalmente pude conseguir um exemplar em perfeito estado, com o amado brinde novo em folha!

Estas experiências me causaram um grande bem estar, algo como um rejuvenescimento; encontrar estes tesouros do passado – seja este que adquiri, sejam estes que agora entram no meu campo de conhecimento e, quase sempre, na minha lista de desejos – reavivou muitas memórias e energias antigas – e acredito que seja isso o que muitos colecionadores sentem junto às suas coleções: um prazer difícil de explicar, ao mesmo tempo muito simples e mágico, de retorno à infância, época em que as coisas eram mais fáceis e belas, quase encantadas. Talvez os quadrinhos sejam doses diárias  e mais brandas de madeleines – cabendo aos mais diversos brindes relacionados aos quadrinhos, sempre menos numerosos e portanto mais raros, um poder mágico ligeiramente maior.

Os brindes e o surgimento dos quadrinhos

   Em alguma medida, a própria existência das revistas em quadrinhos se deve à ideia de brinde: os quadrinhos surgiram enquanto charges e tiras, publicadas fundamentalmente em jornais – e as primeiras publicações a conter exclusivamente tiras de quadrinhos, com o tamanho meio tabloide, foram criadas para serem dadas como brindes aos compradores do sabão da Procter & Gamble e aos fregueses da rede de lojas Woolworth, em 1933 [aqui um texto mais amplo sobre o tema] [aqui uma nota mais breve, em inglês]. Estes ‘brindes’ fizeram muito sucesso junto ao público – e os editores responsáveis pelas revistas, sempre em busca de novidades, logo perceberam um mercado promissor.

Em um paralelo muito interessante, vale lembrar que as primeiras revistas da Marvel lançadas no Brasil também surgiram enquanto brindes – distribuídas gratuitamente nos postos de combustíveis da rede Shell, em julho de 1967. Para alavancar o lançamento de suas publicações Marvel, a Editora Ebal estabeleceu uma parceria com a Shell para a distribuição das ‘edições 0’ de seus três títulos mensais – que na sequência passaram a ser comercializados nas bancas. Para saber mais sobre isso, recomendamos este ótimo texto do blog Super Heróis BR!

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O números 0 lançados nos postos Shell  – edições originais destes gibis custam mais de MIL reais nos dias de hoje

Ainda hoje é comum que algumas revistas sejam “testadas” com edições 0 dadas ‘gratuitamente’ – como ocorreu, recentemente, com a Turma da Mônica Jovem e também com Chico Bento Moço – dois itens bens que já podem ser incluídos na lista de ‘raridades nacionais’.

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Nos dois casos acima falamos sobre gibis dados como brindes – mas como já pontuamos antes, o universo de itens relacionados aos quadrinhos é gigantesco e pode surpreender mesmo o leitor/colecionador mais voraz! Não apenas os diversos gibis do passado trouxeram brindes variados como muitos produtos, das mais sortidas naturezas, lançaram brindes relacionados ao mundo dos quadrinhos, como a pequena seleção abaixo demonstrará:

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Histórias de amizade

Acredito que cada colecionador tenha uma – ou várias – histórias envolvendo itens colecionáveis – e eu posso dizer que estou escrevendo neste espaço, agora, justamente graças à coleção de cards da mini-série Armageddon 2001. Esta saga da DC foi lançada pela Editora Abril em 1993 e tinha como atrativo um conjunto de cards – que vinham tanto nos exemplares da série principal como nos demais títulos mensais da DC.

À época, eu contei a um colega que estava juntando os cards e ele me disse que um amigo também estava – e então ele me apresentou ao Marcelo, tendo início assim minha amizade mais antiga. Não me lembro se chegamos a trocar cards, porque cada um queria ter a coleção completa, mas nossa amizade sempre teve os quadrinhos como pano de fundo e nos trouxe até este exato ponto – o Marcelo que estou mencionando é o célebre editor deste blog, autor da coluna X-Ciência!

[apenas mais uma nota, breve: no natal de 2015, creio, eu presenteei o Marcelo com museu-in-a-book da DC e o João, aquele dos cards, com o museu-in-a-book da Marvel – apesar de eu mesmo não ter estes livros, eu não conseguia pensar em algo melhor com que presentear meus amigos, na ocasião]

Recentemente foi publicada no Facebook mais uma história de amizade em torno dos itens colecionáveis: o colecionador Adriano Rainho, colunista do site Colecionadores de Quadrinhos e apresentador do canal O Quarto dos Sonhos, postou um momento de alegria ímpar:

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Surgem os primeiros sinais em território nacional

Há poucas semanas me deparei com uma postagem bastante propícia – onde um colecionador buscava informações, justamente, sobre um álbum oferecido como brinde de algumas HQs da Disney durante os anos 80. Resolvi aproveitar a oportunidade para lançar a semente e sugeri que seria muito interessante a criação de uma page destinada exclusivamente às memorabilias – um ‘espaço’ para congregar os admiradores e aficionados por estas expansões do universo dos quadrinhos. A ideia foi prontamente acolhida e em menos de 10 horas foi criada a page Gibi com Brinde & Memorabilia de Quadrinhos, que tem sido um local de grande aprendizado e troca de informações, com a postagem de itens raros e por vezes mesmo lendários – cuja existência chega mesmo a ser colocada em dúvida.

O criador da página, o colecionador Marcelo Borba, anunciou ainda que um grupo de grandes colecionadores está com um ótimo projeto em desenvolvimento – guardando para um futuro breve mais detalhes sobre a novidade.

De qualquer forma, podemos notar alguma movimentação em torno do assunto e certamente este novo espaço irá aproximar colecionadores de todo o país, encurtando distâncias e tornando possível a realização de muitos sonhos antigos – sonhos, muitas vezes de crianças, que finalmente poderão se tornar realidade!

 

NOTAS

I – A série museum-in-a-book compreende ainda, até onde eu sei, um volume dedicado unicamente ao Homem Aranha (2011) e um outro ao Batman (2009) – como se fossem, ambos, as estrelas máximas de cada editora [não vamos entrar nesse mérito]. Para fãs aficionados, existe ainda um volume dedicado a Star Wars (2007), outro dedicado a Star Trek (2011) e ainda um dedicado aos Transformers (2011) [para ultra nerds, existe ainda um volume dedicado aos Estudios Hammer, lançado em 2011].

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