Dossiê Ultron – Parte 1: Origem

Por Rodrigo Delli.

Ultron, não apenas um dos inimigos mais clássicos dos Vingadores como um dos mais temidos seres da história dos quadrinhos, foi o vilão do longa Vingadores 2 – Era de Ultron. Mas quem é esta criatura, páreo para os seres mais poderosos do Universo? Qual sua origem?

Prelúdio 1

“Atos de Vingança” foi a saga principal da Marvel entre 1989-1990 – e tinha a seguinte premissa básica: uma vez que enfrentavam sempre os mesmos inimigos, os heróis se tornavam especialistas em derrotá-los… Então, se fossem confrontados por outros vilões, até então desconhecidos, esses heróis não poderiam ser… vencidos? Uma confraria de vilões, dessa forma, começa a coordenar um plano de ataque lançando inimigos inusitados à caça de seus arqui-inimigos.

Publicadas no Brasil, respectivamente, em Superaventuras Marvel #134 e #135.

“Há anos o Rei do Crime tenta matar o Demolidor”, pondera o Dr. Destino, em Demolidor v1 #275. “E por que ele sempre falha?”, prossegue o soberano da Latvéria, “Talvez ele goste de seus inimigos”. Decidido a derrotar o inimigo do Rei do Crime e, dessa forma, afrontá-lo ao demonstrar sua superioridade (“um duplo ato de vingança”), o Dr. Destino cria a 13ª versão de Ultron – combinando as memórias das 12 versões anteriores. Em dezembro de 1989, portanto, o mundo já havia se deparado com 12 en-metalizações do robô. Seria possível resgatar todas elas?

Prelúdio 2

E por que, antes de mais nada, Ultron era tão… temível assim?

Embora na década de 90 o adamantium tenha se tornado tão acessível que você poderia encontrá-lo no mercadinho da esquina, na década de 80, quando eu me deparei pela primeira vez com esse robô sensacional, havia bem pouco adamantium no mundo – e o Ultron era completamente feito dessa liga indestrutível

Publicado no Brasil em Capitão América #113

Parte 1 – A origem de Ultron

Na música Saiba, a cantora e compositora Adriana Calcanhoto nos lembra que alguns dos seres mais poderosos e influentes da humanidade, como Sigmund Freud, Platão, Einstein, Simone de Beauvoir e Che Guevara já foram bebês – assim como Hitler, Pinochet e Saddam Hussein… Todos eles, um dia, foram indefesos bebezinhos que mal suspeitavam do impacto que teriam em nossa história.

Quanto a Ultron, o sintozoide que atualmente ocupa posição de destaque no Universo Marvel, digamos que ele também teve um início modesto – nada que anunciasse “A Era de Ultron”. O vilão foi apresentado lentamente em The Avengers (volume 1) #54, #55, #57 e #58, entre julho e novembro de 1968.

The Avengers #54 apresenta uma estranha figura de voz ameaçadora que permanece sempre sentada – uma figura sem rosto e sem identidade que se autodenomina Manto Rubro. Ele resgatou da cadeia os vilões Garra Sônica, Derretedor e Homem Radioativo, convocou o Cavaleiro Negro (um dos membros originais da equipe de vilões Mestres do Terror), contratou o Tufão e comprou – pasmem – ninguém mais, ninguém menos que o imortal mordomo dos Vingadores, Jarvis!

A pobre mãe do até então fiel mordomo estava deveras doente e, precisando do dinheiro e julgando que, no fim, os heróis iriam derrotar os vilões de qualquer maneira, como sempre faziam, Jarvis entregou ao funesto grupo as plantas da Mansão de Tony Stark – notem que os Vingadores não tinham sede própria, mas contavam com o excêntrico milionário como mecenas. Logo de saída o mordomo é colocado para dormir e os vilões partem com uma missão – capturar os Vingadores.

O Cavaleiro Negro, que compareceu à reunião apenas para se informar sobre as atividades do grupo, pois está buscando traçar para si um caminho diferente de seu tio, o Cavaleiro Negro original, decide ir imediatamente para a Mansão dos Vingadores para avisar os heróis sobre o ataque, mas é surpreendido pelos quatro vilões, colocados em alerta pelo Manto Rubro. Após derrotar o farsante, os novos Mestres do Terror derrotam cada um dos Vingadores, que à época contavam com o Golias, a Vespa, o Pantera Negra e o Gavião Arqueiro.

Em uma última reviravolta, ao concluir a captura dos Vingadores, os vilões entram em contato com seu misterioso líder e descobrem, atônitos, que o Manto Rubro não passava de um robô… e que o verdadeiro comandante dos novos Mestres do Terror era o próprio Jarvis!

Aqueles que tiveram o sangue frio necessário para aguardar The Avengers #55 acompanharam o retorno dos vilões ao covil do Manto Rubro, digo, Jarvis, digo… bem, os vilões levaram os Vingadores inconscientes à presença do Manto Rubro, que depositou os heróis no interior de uma bomba H com o objetivo de chantagear o governo dos EUA e aterrorizar a população. Antes de concluir seus planos, no entanto, ele aguarda os heróis despertarem no interior da bomba e finalmente revela toda a verdade: Jarvis traiu, de fato, os Vingadores, porém apenas por dinheiro, como já havia sido informado na edição anterior – ele apenas encenou ser o vilão sob transe hipnótico; Manto Rubro, por sua vez, não precisa mais existir, revelando sua verdadeira identidade: Ultron-5, o Autômato Vivo!

Ultron golpeia o mordomo e ordena ao Derretor que se livre dele, então, fora do covil, o vilão derruba uma pilha de escombros sobre Jarvis e juga que ele nunca sairá de sua lápide improvisada – mas trespassado pela culpa, o mordomo se ergue e com muito esforço consegue encontrar o Cavaleiro Negro.

Ultron-5 permanece no covil enquanto os vilões sobrevoam o Edifício Empire State. O Cavaleiro Negro intercepta a nave dos vilões e consegue libertar os Vingadores que, juntos, derrotam os novos Mestres do Terror. Ainda aturdidos, os heróis voltam à Mansão e perdoam a traição de Jarvis, reconhecendo que ele arriscou sua vida para salvá-los. Quanto ao terrível Ultron-5, a edição se encerra com uma clássica ameaça, deixando no ar o destino do novo inimigo mortal dos Vingadores.

Dois meses depois, em The Avengers #57, os Vingadores foram atacados por mais uma ameaça inusitada, um ser intangível portador de uma voz extremamente assustadora, que a Vespa caracterizou “como se viesse do além túmulo”.

Imaginem a cena: super a fim de dar uns amassos em uma noite chuvosa, a rica heroína foi deixada “na mão” por Hank Pym que, para variar, tinha muito trabalho em seu laboratório, com uma interessantíssima “cultura de germes” (por um acaso, poucas páginas à frente o Gavião também deixa a Viúva Negra – que aliás, estava mais gata que a Scarlett Johansson – na mão… parece que o único contato corpo a corpo que nossos heróis apreciavam, naquela época, era o combate…). Então a Vespa é atacada em seu apartamento por uma misteriosa e assustadora criatura, que ela chama de Visão – mas quando está prestes a derrotar a heroína, o atacante desmaia…

A misteriosa criatura é levada para o laboratório da Mansão de Stark e quando todos os Vingadores estão reunidos, o Dr. Pym realiza alguns exames e verifica que, ao mesmo tempo, a criatura é e não é humana: ela parece ter fisiologia e estruturas humanas, contudo seus órgãos são sintéticos. O Gavião Arqueiro recorda que o Dr. Pym estava justamente se dedicando a um invento dessa natureza, cujo nome provisório seria sintozoide, um homem artificial… mas justamente quando isso estava em discussão, a criatura desperta e as informações sobre o trabalhado de Pym ficam no ar…

Uma vez de pé, a criatura assume para si o título que lhe foi concedido pela Vespa, “Visão”, e declara que ele foi enviado para destruir os Vingadores. Todavia, após um breve combate, como na situação anterior, ele simplesmente se senta e percebe que não compreende bem a razão de estar ali… assim como não sabe nada sobre si mesmo. Com muito esforço, Visão se recorda de ter sido criado por Ultron-5 e essa lembrança o enche de ódio, “Se é que uma criatura como eu pode ser provida de emoções!”, pondera o sintozoide, perdido em reflexões. Livre de qualquer impulso assassino, ele pondera que pode levar os heróis à presença de Ultron-5 – e, por incrível que pareça, os Vingadores nem pensam duas vezes em aceitar o absurdo convite! Uma vez no sinistro covil do vilão, Visão decide afrontar seu criador e derrota Ultron-5.

No fim, diante do novo aliado, os Vingadores contemplam os restos mortais de Ultron-5 – exceto por sua cabeça – e enquanto os heróis ponderam que enquanto ela ainda existisse todos eles correriam um perigo mortal, a edição se encerra com a declamação do célebre soneto Ozymandias (de Percy Bysshe Shelley, não creditado na edição, que viria mais tarde ser evocado por Alan Moore na todo-mundo-sabe qual HQ), enquanto, pela mais pura força do acaso, um garotinho chuta a cabeça perdida de Ultron e a desativa para todo o sempre…

Em uma das mais célebres aventuras dos Vingadores, “Até um Androide Pode Chorar”, em The Avengers #58, os membros mais clássicos do grupo, Thor, Homem de Ferro e Capitão América, são convocados para uma assembleia de importância singular: o Visão deseja entrar para o grupo – mas dada sua origem nebulosa, cabe aos maiores heróis da Terra concordar ou não com o pedido. “Tornar-se um Vingador não é um direito”, esbraveja o Homem de Ferro, batendo com o punho na mesa, “e sim um privilégio!”. Então, em cenas que só poderiam mesmo ser vistas nas décadas de 60/70, os heróis resolvem descer o braço no novato, começando pelo Capitão América! Ao fim do combate, do qual o Visão se saiu muito bem, diga-se de passagem, todos concordam com sua requisição, observando apenas que seria necessário “sondar suas memórias”. Uma vez mais o amargurado sintozoide se lança ao desafio de desvendar suas memórias… e finalmente tem sucesso! Ele revê seus primeiros momentos de vida, quando Ultron-5 diz que ele “jamais conhecerá nada além de uma vida pela metade” e lhe explica que o único sentido de sua existência é a destruição dos Vingadores. A criatura tenta discutir com seu criador, demonstrando uma série de sentimentos tipicamente humanos, como curiosidade e desejo de conhecer sua origem e seu próprio nome, porém Ultron-5 insiste que sentimentos são características negativas, típicas aos humanos, ao passo que eles seriam criaturas destinadas a fins superiores.

É neste ponto que o Golias volta a discutir um experimento em que começou a trabalhar, um humano artificial… cujo desenvolvimento, no entanto, ele desconhece por completo. Intrigados, os Vingadores partem para a casa de Hank Pym e descobrem que ela está abandonada, fechada com tábuas nas janelas… e o genial membro dos Vingadores continua sem se recordar do que aconteceu. Ao entrar no laboratório, o Dr. Pym se recorda que seu último experimento foi o Homem-Dragão, mas ambos entraram em combate e destruíram o laboratório… que agora está reconstruído, ainda que empoeirado. Ele avista uma máquina chamada “Banco de Memórias” e a acessa, descobrindo tudo… quando temos a primeira imagem de Ultron:

Primeiríssima versão de Ultron.

Em seus esforços para criar uma forma de vida artificial, ainda que sem se explicar muito bem, o Dr. Pym criou um sintozoide que, como acabamos de ver, não só desenvolveu vida própria como desenvolveu consciência pessoal e particular… Após balbuciar “pa-pa”, como um bebê, a nova forma de vida rapidamente evolui até alcançar um discurso adulto e mortal, profetizando: “No dia em que me criou, você garantiu sua própria e irreversível perdição!”. Todo o discurso da HQ é permeado por um tom, presente entre nós ainda hoje, de que a ciência não deve aspirar ao dom da vida, um dom exclusivo de Deus – e a criatura, que passa a emitir “rajadas Ultron”, às vésperas de exterminar seu criador, opta por hipnotizá-lo com uma ordem simples: esquecer tudo o que aconteceu e abandonar para sempre a habitação.

Voltando ao tempo presente, o Homem de Ferro observa que as fitas em que a memória de Magnun foram gravadas sumiram… e então uma parte da origem do Visão é revelada.

Em The Avengers #9 (outubro de 1964) os Vingadores conheceram um estranho vilão chamado Magnun (Wonder Man), associado ao Barão Zemo e líder da… formação original dos Mestres do Terror! Buscando vingança contra Tony Stark, Simon Williams obteve grandes super-poderes e recebeu a missão de se infiltrar nos Vingadores, com o único objetivo de baixar a guarda do grupo para um ataque dos malfeitores. No entanto, no último momento, ao descobrir que Zemo pretendia matar os heróis, Magnun teve uma severa crise de consciência e percebeu que não poderia trair aqueles que o receberam com o coração aberto e lhe dedicaram tamanha amizade – e acaba sacrificando-se em prol dos heróis. Incapazes de salvar seu corpo, os Vingadores decidem guardar os “padrões cerebrais” de Magnun no Banco de Memórias do Dr. Pym, refletindo que “talvez ele possa viver novamente… em outra época… e outra forma!”.

Assombrado, Visão percebe que é um sintozoide “com os padrões cerebrais amnésicos de um homem assassinado“, cujo cérebro é “um labirinto de circuitos impressos… de uma mente há muito morta“. Retomando a questão inicial da HQ, os Vingadores decidem aceitá-lo em suas fileiras e o cumprimentam efusivamente, mas o gélido sintozoide pede licença e se retira…

O Homem de Ferro comenta: “Estranho… por um momento pensei ter detectado um traço de sentimento! Mas a voz dele é tão indescritivelmente fria…”. O Golias, então, conclui: “Ele não pode evitar, Vingador! Ainda assim, se você viu os olhos dele agora mesmo, deve ter aprendido que…

Como Ultron-5 já havia sido destruído na edição anterior, esta aventura apenas nos esclarece alguns elementos de seu surgimento, cedendo maior atenção ao mais novo membro dos Vingadores – todavia não fica claro como “uma torradeira” desajeitada desenvolveu consciência e como evoluiu até se tornar Ultron-5. É notável, de todo modo, como aqui estão elementos que no futuro seriam estruturalmente incorporados à cronologia do Universo Marvel e são o próprio cerne de A Era de Ultron. Ainda há muito a se descobrir sobre esse vilão e em breve pesquisaremos suas “outras versões” em busca de mais respostas.

Há pouco tempo, Léo Provollone analisou as dimensões problemáticas da personalidade do Dr. Pym, e enquanto essas duas últimas edições apresentam alguns de seus aspectos iniciais, é no par de HQs seguintes, The Avengers #59 e #60, que o Golias desaparece, cedendo lugar ao arrogante Jaqueta Amarela que, de uma hora para outra, não apenas conquista o coração da Vespa como a leva ao altar – para logo em seguida se verificar que se tratava do próprio Golias, que havia sofrido um episódio dissociativo…

Por fim, em um ensaio analítico, arrisco-me a dizer que o título passava por um ótimo momento com um padrão de texto e arte sensacionais, graças à dupla Roy Thomas e John Buscema. Cada número, já retomando elementos do passado dos próprios Vingadores enquanto ampliava sua própria mitologia, combinava momentos de humor (como as desajeitadas relações amorosas dos heróis ou as diversas tolices perpetradas pelo Golias, que em seu tamanho descomunal facilmente quebrava móveis) com discussões de tom existencial (o Pantera Negra refletia o tempo todo sobre sua decisão de ter deixado seu reino e sobre a importância de ser um herói em uma metrópole) e drama (o Visão é sempre retratado como alguém desolado pelo vazio da dúvida, alguém que poderia ser humano, mas está aprisionado no corpo de uma máquina) – e sempre com muita ação, algo que todo leitor de quadrinhos espera.

The Avengers #57 e #58 foram publicadas no Brasil pela Editora Abril em Heróis da TV #34, em abril de 1982, porém todo o arco mencionado, The Avengers #54 a #60, foi publicado recentemente pela Panini no volume 4 da Coleção Histórica Marvel, em junho de 2012.

Bônus

Se você achou que o Golias agiu de maneira estranha ao fugir da raia, dá uma olhada no que aconteceu com esta gatinha aqui…


Rodrigo Delli é o cara que deveria usar seus conhecimentos em história para ampliar os potenciais científicos do Provollone… mas por enquanto publicamos apenas os poucos textos que ele rascunha, mesmo…

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