[+18 – gore] Um olhar apaixonado para as HQs – O lado sombrio dos quadrinhos: o suicídio

   A existência humana está sujeita a uma vasta gama de situações e experiências que implicam em uma infinidade de sensações e emoções. Entre o mais venturoso momento de êxtase e o instante de horror mais abjeto, infinitas são as gradações de felicidade que um indivíduo pode vivenciar. Enquanto manifestações artísticas, as revistas em quadrinhos guardam representações do variado leque das emoções e situações existenciais possíveis, ainda que com diferentes ênfases e enfoques[1]. Muitas HQs de super-heróis não trazem nada além de pancadaria estilizada, mas se você refletir um pouco irá se recordar de alguma edição ou saga marcante – e é bem provável que seu diferencial resida em uma abordagem mais séria, mais profunda, de um dos problemas humanos essenciais.

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   Desde o advento do romantismo, no século XVIII, os movimentos literários não apenas têm colocado forte ênfase na discussão dos problemas humanos como também, com o passar das eras, acentuado progressivamente o tom das discussões – paralelamente à complexificação da vida contemporânea. No que diz respeito às revistas em quadrinhos, a transição entre as diferentes Eras também é acompanhada pela complexificação dos temas humanos, muitas vezes secundários, bem como por mudanças no tom de otimismo com que estes problemas são abordados. Os eventos que marcam o fim da Era de Prata, para certa linha de historiadores/críticos dos quadrinhos, são a morte de Gwen Stacy (The Amazing Spider-Man #121-122, junho e julho de 1973), no universo Marvel, e a drogadição de Ricardito (Green Lantern & Green Arrow #85-86, agosto e outubro de 1971), no universo DC – temas de um realismo inédito, até então.

   A expressão “problemas humanos” engloba uma série de situações e vivências bastante abrangente, cujo conglomerado pode variar de autor para autor. Com o presente escrito pretendo inaugurar uma série de textos sobre como os quadrinhos de super-heróis têm discutido algumas dimensões negativas da existência, a saber: o suicídio, o vazio existencial e a morte. Como o leitor poderá observar, muitas vezes esses temas se encadeiam ou se relacionam em composições complexas.

   E por que começar com o suicídio? Bem, o filósofo Albert Camus afirmou, em O Mito de Sísifo (1941), que o único problema filosófico realmente sério é o suicídio – discutir se a vida vale a pena ser vivida ou não “é responder à questão fundamental da filosofia”, relegando todas as demais questões para outros momentos. Antes dele, em 1897, o sociólogo Émile Durkheim já havia dedicado ao tema um volumoso estudo de destaque. Curiosamente, eu gostaria de acrescentar ainda, Os Sofrimentos do Jovem Werther, obra que inaugurou o romantismo em 1774, escrita por Johann Wolfgang Goethe, culmina justamente com o suicídio de seu personagem principal. Não é notável que todo um movimento, esbravejando sentimentalidade em busca de idealizações talvez inalcançáveis, sinônimo hoje de algo ingênuo e pouco realista, tenha como marco inicial um tema tão… sombrio, tão contrário à imagem que dele temos hoje?

   A humanidade lida com a questão do suicídio há muitos séculos.  Inúmeras são as razões pelas quais as pessoas lançam mão desse recurso derradeiro e anualmente milhares de indivíduos põem fim às próprias vidas. Embora os métodos possam ser limitados e facilmente determinados, as razões pelas quais alguém decide não mais existir são virtualmente infinitas e, em muitos casos, não são determináveis. Incontáveis obras foram escritas sobre o tema e todo tipo de ações têm sido postas em prática, desde campanhas divulgadas em diferentes mídias a entidades permanentes de prevenção – porém, ano a ano, as taxas de suicídio se mantém, apontando que estamos diante de um problema muito grave.

   Neste texto apresentaremos quatro casos de suicídio nos quadrinhos; não por acaso, todos datam da década de 80 em diante, posteriores à revolução estética da chamada Era Sombria – revolução que, sob a pena de autores como Alan Moore, Neil Gaiman, Frank Miller e Grant Morrison, buscou elevar os quadrinhos do papel de mero entretenimento ao panteão das artes, justamente ao introduzir discussões mais sérias regularmente no universo dos super-heróis. Como observamos linhas atrás, ao mencionar o encerramento da Era de Prata, outros autores já haviam abordado temas mais pesados – mas apenas esporadicamente e, via de regra, com um forte tom moralizante, apontando o mal apenas como uma forma de exaltar o bem. Em 1986 a DC passou a estampar o selo “suggested for mature readers” nas capas de alguns de seus títulos e os autores ganharam aval para trabalhar com assuntos até então proibidos pelo “Comics Code Authority” – tais como drogas, sexo, morte, temas profanos e outros assuntos polêmicos. Em 1993 a editora criou o selo Vertigo, que abrigou as publicações ainda restantes e originou todo um novo universo – sinônimo, desde então, de quadrinhos adultos.

   A Marvel, que em 1974 deu início à publicação de uma HQ mais ousada, Savage Sword of Conan, em 1980 também buscou alcançar um público mais “maduro” com o título Epic Illustrated, que teve curta duração. No entanto, em 2001 surgiu a linha Marvel Max, que passou a apresentar histórias mais pesadas, porém com super-heróis – um diferencial significativo com relação à DC.

Como veremos no presente texto, contudo, os quadrinhos de super-heróis mais tradicionais também podem tratar de temas complexos e sombrios.

Spoiler alert!

Todas as narrativas abaixo contêm descrições das tramas das HQs analisadas.

Leia com discrição.

Suicídio em sombria serenidade:

“A Última Caçada de Kraven”

   “A Última Caçada de Kraven” foi publicada em nosso país pela Editora Abril como uma minissérie em três edições, em 1991, e recentemente republicada em volume único pela Salvat, em sua coleção de Graphic Novels. Originalmente, no entanto, ela percorreu diversos títulos do “cavaleiro das teias”: Web of Spider-Man #31-32, The Amazing Spider-Man #293-294 e The Spectacular Spider-Man #131-132, entre outubro e novembro de 1987. Esta saga se destaca do corpo de publicações do Homem-Aranha, um dos principais expoentes da Marvel, ao apresentar uma aventura mais madura em diversos níveis – e um de seus principais recursos é justamente a inversão de uma série de padrões clássicos das HQs.

   A aventura começa com uma digressão do vilão Kraven, o Caçador, sobre como a sociedade contemporânea perdeu todo o esplendor e a glória do passado, mencionando como a revolução russa fez mais mal do que bem à história soviética, admitindo na sequência que as demais sociedades entraram em decadência – e de saída podemos destacar que temas políticos não eram muito comuns em HQs de super heróis. Kraven admite que está ficando velho, apontando vagamente ter chegado à América há mais de setenta anos… quando entra em uma sala, que se assemelha a uma catedral, onde há um caixão, como se estivesse em um velório… Ele se ajoelha diante do caixão, refletindo: “eu morrerei em breve”. Ele retira do ataúde um uniforme do Homem Aranha e, com uma lágrima no olho, conclui: “mas ainda não”.

   O Homem Aranha, por sua vez, atravessa uma noite de chuva embrenhado com uma questão pouco usual – a morte de um de seus ‘informantes’,  na verdade, alguém que ele socava, de tempos em tempos, em busca de informações sobre o submundo do crime. ‘Joe Face’ está morto e isso o leva a refletir sobre a possibilidade de morrer – algo sempre por perto, nas HQs de super heróis, mas nunca próxima o suficiente para os afligir. “Não existe Homem Aranha. Ele é só uma máscara. Um mito”. Por baixo da máscara há um homem, Peter Parker, que é mortal, humanamente mortal. Ele se deita para dormir. “Eu vou morrer”, reflete ele antes de apagar a luz; “mas ainda não”.

   Kraven começa a devorar aranhas. Peter Parker desperta, assombrado, com a cabeça latejando, e sai em patrulha. Julga ouvir tambores… e inesperadamente sente seu sentido de aranha tilintando: salta, esquivando-se de um dardo, mas logo é atingido por um segundo disparo… Por um momento julga que o espectro de Joe Face veio falar com ele, mas logo percebe estar diante de seu velho inimigo, Kraven. O vilão, em off, revela que ampliou sua consciência com “ervas e raízes” para se apossar da essência da aranha… E então, em combate corpo a corpo, Kraven derruba o Aranha, aprisionando-o com uma rede. “Já estive em situações piores”, reflete ele: “eu conheço o método de Kraven. O sujeito é exatamente igual ao Dr. Octopus, o Abutre e o resto deles. Kraven vai me levar pra algum esconderijo secreto, passar algumas horas babando e gritando… e, enquanto faz isso, eu bolo um jeito de arrancar esse risinho da cara dele”… Temos uma exposição do roteiro básico de… um trilhão de HQs? Mas é pela inversão que a aventura ganha força e o vilão, munido de um rifle, dispara contra o herói.   A segunda aventura começa com Kraven diante da lápide do Homem Aranha, trajando o uniforme negro, rindo na chuva. Pouco adiante ele afirma que não basta derrotar seu maior inimigo – é necessário assumir seu posto. Mais: é preciso se fundir com a aranha. Ele volta a tomar uma poção e é tomado por terríveis alucinações, quando reflete: “somente tomando seu lugar… provando a mim mesmo que sou superior a ele… provando a mim mesmo que sou um homem-aranha melhor… minha vitória será completa… e fará sentido”. Alguém aí, além de mim, sacou o prenúncio do “Homem-Aranha Superior”?

   Paralelamente temos duas outras tramas: Mary Jane sente a falta de Peter Parker, mais uma vez se questionando se ele estará em perigo, buscando se tranquilizar com a lembrança de que, no fim, ele sempre volta para casa – afinal, estamos falando de quadrinhos, não? Nos esgotos, um esquecido vilão do passado, Ratus, encontra um jornal com uma foto do Homem Aranha, e é tomado por confusas lembranças de outros tempos. Perturbado, o monstro entra em uma discussão interna: permanecer escondido, em segurança, ou deixar o subsolo em busca de vingança?

   Inquieta, Mary Jane sai e é molestada por dois valentões, que a cercam em um beco, enquanto é observada de um bueiro… Ela chega a se sentir ameaçada por alguns instantes, mas então sorri. O Homem Aranha detém a dupla, porém com desmedida violência – e ela percebe que não foi salva por Peter…

   A cidade segue em alerta. O Homem Aranha está fora de controle, espancando criminosos como nunca – e chegando ao extremo de matar, algo inédito até então. Além disso, há um assassino canibal na cidade, que devora até os ossos de suas vítimas! Em sua trilha de insanidade auto induzida, Kraven diz que pode ver os fios do destino e vai até a ‘toca’ de Ratus. Ele busca convencer o monstro de que só o venceu, no passado, porque estava acompanhado do Capitão América, afagando o ego da criatura – bem como o seu próprio: o Homem Aranha não podia ter derrotado Ratus sozinho, mas ELE pode.

   Na quarta parte da saga o Homem Aranha emerge do túmulo, descobrindo que ficou desacordado por duas semanas. Enfraquecido, quase sem voz, ele visita Mary Jane, seu grande amor, e parte em busca de Kraven. Ao passo que o vilão enfatiza o tempo todo que está em busca de algo maior que o homem que vestia o uniforme, em busca da aranha (com minúsculas mesmo), Peter assume sua mortalidade e se prontifica a enfrentar o vilão não como um super herói mitológico, mas como um homem.

   O quinto número é bastante denso: a chuva persiste. O Homem Aranha encontra Kraven, furioso.

   Kraven se despe completamente na frente de Peter e veste seu traje tradicional, pedindo que o herói o siga. “Como me sinto calmo, tranquilo. É como se alguma coisa dentro de mim… algum nó, algum novelo de medo e ódio secular… tivesse sido desfeito”. Kraven conduz o herói até uma jaula eletrificada, onde Ratus está aprisionado. Enquanto se passava pelo Homem Aranha, Kraven torturou o monstro de maneira tão intensa que este desenvolveu horror à figura trajada de negro. Calma, a mente de Kraven não pára de refletir: a figura à sua frente é apenas um homem e ao mesmo tempo, ainda que sem o saber, toda a corporificação da decadência que ofusca o mundo. “Meu triunfo aterroriza você, não? Você sabe que a partida acabou… que você perdeu. Claro que ainda há um mundo lá fora para você torturar e devorar… entranhas para rasgar… mentes para destruir”

   Último ato de sua derradeira caçada, Kraven liberta Ratus. Este ataca o Homem Aranha – que mesmo furioso é derrotado. Kraven detém a criatura e diz que ela está livre. Arrasado, o Homem Aranha o recrimina, dizendo que o monstro vai voltar a matar. Kraven carrega o Homem Aranha até a saída para que ele possa ir atrás da perturbada criatura, mas naturalmente o herói reluta. “Depois de todos esses anos, você aprendeu que sou um homem de palavra. Eu lhe dou minha palavra de que, desta noite em diante, Kraven, o caçador, jamais caçará novamente”. O Homem-Aranha parte. “Todo homem… toda mulher… toda nação… toda era tem sua Aranha. Você foi a minha. Que fardo. Que… honra”, reflete o vilão enquanto o herói se afasta.

   “Disseram que minha mãe era insana”, retoma Kraven algumas reflexões, agora sozinho, diante do caixão mencionado no princípio da saga. No início da HQ ele havia revelado: “disseram que minha mãe era insana, que ela mesmo se matara. É mentira“. Ele contempla um retrato de família.   Podemos observar como diversas questões se imbricam na mente de Kraven: a ausência dos pais e de outros familiares para lhe dar apoio, o estranhamento cultural e a consciência de sua finitude. Nas revistas em quadrinhos de super heróis, os personagens são… arrisquemos, eternos – imunes à passagem do tempo. Parecem, inclusive, cada vez mais jovens… Quando um personagem de celulose ganha uma camada a mais de densidade, neste caso, a finitude… todo um mundo de possibilidades se abre.

   Depois da centésima HQ de super heróis, qualquer leitor deve estar habituado a um padrão: vilões com as ideias mais malucas entram em ação, heróis que raramente trabalham entram em seu percalço e depois de uma boa dose de violência o herói se sai vitorioso. Em um mundo onde existem seres como o Thor e o Homem de Ferro, pra que tentar roubar um banco? Em cidades sitiadas, como Gothan, como alguém pode vestir um uniforme e tentar enfrentar alguém tão mitológico quanto o Batman? Bem, edição após edição estes e praticamente todos os outros heróis enfrentam inimigos, das mais variadas magnitudes – com sucesso. Não são poucos os vilões que aprisionam heróis, colocam seus maiores inimigos para dormir, contam vantagem, como o Homem Aranha mencionou na #1, e ainda assim são derrotados… reiterando um padrão que o Doutor Destino ironizou em Daredevil v1 #275: talvez os vilões gostem de seus inimigos…

   Embora com diferentes características e ênfases, eu diria que todos os vilões carregam alguma dose de loucura – e não é fácil determinar se Kraven, sendo tratado com alguma seriedade, apenas tomou uma atitude coerente ou de fato passou a sofrer de algum transtorno mental mais grave: por toda a HQ temos paranoia, delírio de grandeza, busca de redenção familiar, busca por autoafirmação perante o ‘mundo civilizado’ e ainda perante o gigantesco time de inimigos do Homem Aranha… e a lista poderia ficar maior. Delírios… pessoais, ampliados pelo uso de drogas, ou eventualmente induzidos pelo abuso delas?

   Kraven escolheu encerrar sua vida em um momento de plenitude pessoal, um momento de sombria serenidade.

6 soluções para esta agonia nesta 38:

“A Morte do Vigilante”

   É bem possível que você não conheça o Vigilante. Em primeiro lugar, precisamos dizer que não se trata do cowboy montado em uma moto com o mesmo nome, o clássico herói da Era de Ouro que foi trazido de volta recentemente. Estamos falando de Adrian Chase, um promotor de justiça que teve a família assassinada por um grande chefão do crime organizado e, cansado das falhas do “sistema”, passou a fazer justiça com as próprias mãos. Parece clichê? Criado pela dupla de ouro Marv Wolfman e George Perez em 1983, é impossível não pensar neste herói como uma versão do Justiceiro para a DC – até porque ele era tão violento quanto o próprio Frank Castle. No entanto, vale lembrar que o Justiceiro só ganhou revista própria em 1987 – ano em que, mais precisamente no mês de abril, na edição 40, a revista do Vigilante passou a fazer parte do time “suggested for mature readers” [2].

   Já no primeiro número da revista própria do Vigilante temos um vislumbre de sua angústia existencial: “eu devia estar aborrecido por não sentir um vazio dentro da alma! Se tivesse esse sentimento, ele poderia ser usado pra acalmar o ódio que me queima sem parar um só instante… Um estranho pensamento ecoa em minha mente… o coração de um homem não pode ser de pedra! Contudo, quando olho para mim, a verdade dessa frase me foi negada para sempre!”.

   O arco de histórias que culmina com o fim do herói foi publicado, em nosso país, pela editora Abril em DC Especial #5, “A morte do Vigilante”, em 1991, HQ que pode ser facilmente encontrada em qualquer sebo, entregue à crítica roedora dos ratos… O encadernado traz as edições Vigilante #45 a #50. Nesta fase final, o herói está trabalhando para uma divisão especial do governo comandada pela (então) Mulher Negativa. Ele mesmo admite que está levando uma vida muito agitada, pouco se importando com sua segurança, como se estivesse, de fato, buscando morrer… O Vigilante varre as ruas de Nova York em busca de um assassino de criminosos chamado Espinho – até descobrir que o assassino na verdade é uma mulher… e eles acabam se envolvendo em um louco caso de amor. As três primeiras edições combinam violência, sexo e ação em ritmo frenético, sempre discutindo o papel ambíguo dos vigilantes: ter que usar de violência para conter outras manifestações da violência.

   As três edições finais começam a apresentar discussões com um fundo social: diariamente os sem teto e mendigos de Nova York são ignorado, importunados, atacados, roubados e vilipendiados das mais diversas formas por todas as camadas da sociedade. Surge então uma figura misteriosa, autodenominada Vingador dos Sem Teto, que passa a defender os menos afortunados e a matar de maneira extremamente violenta seus agressores. Sua movimentação chama a atenção do Vigilante e de Espinho, que partem em seu encalço. Nesse meio tempo, um Capitão da polícia decide que precisa parar o Vigilante e começa a arquitetar um plano de ação.

   O Terminal Grande Central é tido como o inferno na Terra – é para lá que vão muitos sem teto, doentes e extenuados pela fome. São vítimas fáceis de arruaceiros e ladrões menores, que abusam daqueles que não têm defesas. O Vingador dos Sem Teto estava descansando no terminal quando foi importunado por assaltantes, que derrota sem dificuldades – mas uma horda de 30 malfeitores decide enfrentá-lo. Espinho Negro contém a turba unicamente para ter ela mesma a oportunidade de acabar com o ambíguo assassino – mas é contida pelo Vigilante. Chase se identifica com os sem teto, pessoas que perderam tudo como ele, e acredita que o Vingador dos Sem Teto é um herói, como eles – mas Espinho enxerga apenas um assassino que merece a morte. Eles se lançam a um combate violento e após muita pancadaria o Vigilante derrota a amante. Ele diz ao mascarado que sente muito, vacilante quanto a ajudá-lo ou não, mas o próprio o dispensa: “você já fez o suficiente”, diz o Vingador. “Deus o abençoe”. Chase recolhe o corpo da companheira e vai embora.

   Em Vigilante #50 [fevereiro de 1998] tudo desaba – Chase pega o jornal e encontra a manchete que confirma o que ele já esperava: o Vingador dos Sem Teto foi espancado até a morte. Ele se sente péssimo por não ter salvado o “vigilante”. Espinho, repleta de machucados, desperta e não se surpreende com a notícia, dizendo que ela mesma acabaria com ele se o bando não o tivesse feito. Chase resolve sair e ela tenta detê-lo; Chase bate nela e se retira.

   Encontraremos o personagem no cinema, assistindo a alguma das edições de Sexta-feira Treze, refletindo sobre como sua existência desafortunada tem trazido morte a todos ao seu redor. Lembranças dos familiares perdidos e dos amigos que fez depois perpassam sua mente, memórias sempre seguidas da amarga constatação de que foram mortos por sua proximidade com o herói. Um bando de adolescentes começa a fazer arruaça e ele espanca o bando, bem como um segurança que tenta conter o distúrbio. “Eu precisava continuar me movendo pela noite… para deixar meus pensamentos para trás! Vesti o uniforme e me fundi às sombras… onde as trevas e a solidão tornavam tudo pior! Eu poderia ter perambulado usando roupas normais, eu sei… mas aquilo me negaria uma desculpa para a violência!”. Ele começa a se envolver em todos os tiroteios possíveis, encontrando focos de crime e violência a cada dois quarteirões, em uma absurda trilha sangrenta.

   O Capitão Hall havia preparado um falso tiroteio para atrair a atenção do herói – que cai na armadilha e mata facilmente vários policiais. Ao perceber a situação ele resolve fugir, mas por reflexo dispara no Capitão Hall, um amigo do passado…  Transtornado, ele tenta ajudá-lo, mas é repelido.   Apontado inúmeras vezes como um sujeito psiquicamente instável, extenuado pela ausência de seus entes queridos e finalmente lançado diante de um dilema existencial profundo, ao ter que admitir que havia atravessado a fronteira que separa os ‘bons’ dos ‘maus’, fulminado terrivelmente pela culpa Adrian Chase encerrou sua vida com a mesma violência com que encerrara a vida de inúmeros ‘malfeitores’. Acredito que nunca um herói de revistas em quadrinhos tinha recebido uma abordagem tão crua – e acredito ainda que o Vigilante tenha sido o primeiro, senão o único, detentor de um título próprio a cometer suicídio, encerrando consigo a publicação.

   Desde a morte de sua família, interpretemos isso como fatalidade ou absurdo, Adrian Chase foi tomado por um oceano de desolação, raiva e frustração. Tornar-se um ‘vigilante’ foi sua maneira pessoal de buscar alguma compensação por seu vazio pessoal e profissional. Desde o princípio de sua nova carreira ele tomou como preceito nunca tirar a vida de alguém inocente – e ao matar um policial, em Vigilante #37, ele cometeu um erro irreparável. Por quanto tempo um indivíduo pode suportar tanta pressão?

A felicidade não é uma opção: Sandman #20 – “Fachada”

   “Dizem que cigarros acabam matando a gente. Ótimo. Isso é ótimo mesmo. Eu só queria que fosse mais rápido”.
   Publicada em outubro de 1990, Sandman #20 ocupa uma alta posição na minha lista pessoal de HQs “tétricas e depressivas”. Desde o primeiro número, Neil Gaiman apresentou aos leitores uma fascinante visão de mundo com densidade psicológica ímpar; cada número, mesmo no interior de uma saga maior, pode ser lido de modo independente, combinando elementos poéticos e perturbadores em doses inusitadas. Antes de abordar o suicídio, Gaiman já havia falado sobre temas extremamente pesados como relações familiares conturbadas, assassinato em série e mesmo a morte.
   “Fachada” aborda a história de Urania ‘Rainie’ Blackwell, uma agente aposentada da “Companhia” – mais uma variante ficcional de agência de investigação norte-americana. Ela foi instruída a adentrar em uma pirâmide, no Egito, em busca de um artefato mágico chamado “Olho de Rá” e este lhe concedeu o poder de controlar todos os elementos químicos do mundo – alterando profundamente, no entanto, sua aparência e sua constituição física, como podemos notar na imagem ao lado. A HQ não tem muitas digressões, mas sugere que em algum ponto ela foi ‘desligada’ da companhia e, lidando mal com sua nova condição, agora vive um cotidiano extremamente solitário onde as horas se sucedem vazias e inúteis; seus contatos sociais se resumem a uma ou duas ligações por mês, para uma pessoa que ela não conhece… e ela não tem coragem/ânimo para fazer nada fora de casa.
   Surpreendentemente o telefone toca e uma amiga do passado a chama para um almoço. A antiga companheira da “companhia” está grávida, em uma situação um pouco usual, e reflete sobre o que pode ser seu futuro – tem 36 anos e, portanto, seu filho pode nascer com alguma deficiência… e nesse momento, na rua, elas avistam um grupo de pessoas com variadas deficiências, que a ‘amiga’ descreve como monstros… Perturbada, Rainie foge do restaurante e volta para casa; liga para seu contato na companhia, mas ele “foi transferido de setor”. Transtornada, ela chora e diz que deseja morrer – mas que não sabe como…

 

   Em sua fuga do restaurante ela esqueceu a bolsa e precisou derreter a maçaneta da porta – então, pela porta aberta, uma moça de preto entra e se propõe a conversar com ela. Rainie descreve como já pensou em todas as formas tradicionais de suicídio – mas como seu corpo, indestrutível, resistirá a cada uma delas: não pode cortar os pulsos porque não tem sangue correndo no corpo; não pode inalar gás, ou qualquer outra substância tóxica, porque seu corpo processa toxinas; ela chega mesmo a cogitar a hipótese de “se sentar em um teste nuclear… se achasse um” – mas ela acredita que sobreviveria e que, uma vez radioativa, ninguém mais se aproximaria dela…

   Acontece que a moça de preto não é pessoa qualquer: Rainie está diante de uma das irmãs de Morpheus, a Morte:

   Sandman #20 foi marcante, para muitos leitores, por apresentar pela segunda vez aquela que se tornaria a mais simpática (por contraditório que isso possa parecer) e famosa figura do universo do sonhar, a Morte – a primeira, inclusive, a ganhar mini séries próprias. Voltando à trama, no entanto, ela tenta acalmar Rainie dizendo que não é nem abençoada e nem misericordiosa – apenas faz seu trabalho. A moça perde a animação, frente à maneira racional com que a Morte se posiciona diante de seu papel. “Então você não vai me ajudar”, pergunta ela, constatando que talvez ainda tenha séculos de inferno em vida.

   Com muita sutileza, então, Rainie descobre o que fazer… e logo ela se torna uma pilha de poeira…

   Sandman #20, uma edição ‘suggested for mature readers’, pré-Vertigo, difere das HQs que analisamos até aqui em diversos pontos: Rainie não é uma heroína, uma vilã ou mesmo uma vigilante. Ela é uma pessoa com poderes cuja vida não tem, a seus próprios olhos, sentido – o que, de saída, é um diferencial típico do universo ‘maduro’, pois mostra àqueles que acreditam que ter qualquer super poder seria algo fantástico: mesmo pessoas com super poderes têm problemas. Gaiman não lança mão do recurso do luto: ela não perdeu ninguém – perdeu a vontade de viver. Ela não tem honra a recuperar ou mesmo culpa por alguma ação de seu passado: ela apenas não suporta mais estar viva.

   Apenas no quesito sanidade temos um ponto comum: é evidente que ela está deprimida e que, conforme a própria Morte comentou, não está sabendo como lidar com sua vida. Metamorfo, um super herói da mesma ‘linhagem’ de Rainie, pode ter demonstrado, em algumas edições junto à finada Liga da Justiça Europa, algum mau humor – mas nunca desistiu da vida ou mesmo da vida em sociedade. Em algum ponto as coisas começaram a ir mal para Rainie… e sua força vital foi se extinguindo, lentamente. Indivíduos deprimidos podem ter seus horizontes existenciais diminuídos – e passam a imaginar que seu futuro será um longo martírio, idêntico ou ainda pior que seu presente. Muitas pessoas afetadas pela depressão não têm energia para darem cabo de si – mas Rainie, uma esquecida personagem do passado, teve uma ajudinha… e deixou de existir, de uma maneira muito sútil…

Deixe o sangue correr livremente:

“A noite mais densa” – prólogo

   Green Lantern (v.4) #43, lançada em setembro de 2009, é o prólogo da saga A noite mais densa – uma maxi-série extremamente bem sucedida da DC. Retirada do juramento dos Lanternas Verdes, a frase “a noite mais densa” sugere um momento particularmente difícil – e embora o tom da série tenha sido… levemente sombrio, esta edição em particular é uma HQs mais dementes que já li.

   Green Lantern #43 começa com um painel do vilão Mão Negra, aparentemente no interior de uma vala, abraçado a um corpo em elevado estado de decomposição. “Existe vida após a morte. Uma vida enterrada na terra fria e úmida. Os únicos sons são soluços abafados vindos do alto. A única visão é a eterna escuridão das profundezas. Meu nome é William Hand. Embora eu permaneça vivo, meu coração está preenchido pela morte. E eu estou feliz“.

   Temos então uma [nova] narrativa acerca da ‘origem’ do vilão (muito distinta da origem clássica do personagem, durante a Era de Prata): sua família vivia nos fundos da funerária do pai e desde cedo o pequeno William Hand demonstrou fascínio pelos mortos. Quando todos começaram a reclamar de seu cachorro ele o matou e o empalhou. “Eles me mandaram para meia dúzia de psicólogos até eu aprender a dizer o que eles queriam ouvir, ao invés do que eu queria dizer”. Logo ele se tornou a ovelha negra [black] da família Hand [mão] – até o dia em que Atrocitus, futuro fundador dos Lanternas Vermelhos, o atacou, dizendo que em seu interior jazia uma passagem para a escuridão eterna. Atrocitus foi subitamente detido pelos jovens Lanternas Verdes Hall Jordam e Sinestro – que não perceberam que a arma desenvolvida pelo alienígena para absorver poder, chamada “varinha de revelações cósmicas” [cosmic divining rod], que supostamente deveria conter a energia negra contida em Hand ou mesmo a energia verde dos anéis dos Lanternas, foi perdida durante o combate e recolhida por Hand, que foi instruído pela “morte” a fugir do local. Hand passou a detestar a luz verde dos Lanternas e, munido da varinha, decidiu se tornar um vilão, elaborando seu uniforme com retalhos de sacos para corpos. Ele foi derrotado diversas vezes até perder a mão direita em um combate contra o Espectro. Sua mão foi reconstruída pelos gremlins kroloteanos e ganhou o poder de drenar energia dos seres vivos.

   O Mão Negra é despertado pela obscura voz da “morte” enquanto reflete sobre as almas dos super heróis mortos, bem como daqueles que morreram mas ‘voltaram do além’. A voz diz que deseja suas almas de volta.

   Então, em uma das sequencias mais brutais dos quadrinhos de super heróis, ele volta ao seu velho lar e mata os dois irmãos, a mãe e por fim o pai, que estavam sentados à mesa para o jantar. Ele se senta à mesa e então volta a escutar a voz:19cf3c89b82744b37396d3f278ae6d29--black-lantern-blackest-night

   Uma vez morto, o Mão Negra é convocado por Nekron e se torna o primeiro Lanterna Negro, iniciando a “noite mais densa”.

   O Mão Negra afirmou que podia “ouvir a morte” desde a mais remota infância – e toda sua vida foi marcada por uma mórbida fascinação pela morte. Não é de admirar que tenha sido considerado mentalmente insano desde pequeno e temos evidências de que ele foi obsediado por uma entidade maligna, Nekron. Insano ou vítima do destino, sua vida foi uma sequencia terrível de infelicidades. Quanta autonomia ele tinha para decidir sua última ação?

   Green Lantern #43, publicada praticamente 20 anos após as 3 primeiras, muito embora não tenha qualquer advertência quanto a seu conteúdo, é de uma violência gráfica extremamente elevada quando comparada às anteriores. Nos dois primeiros casos podemos notar que os autores evitaram retratar a cena da morte dos personagens, recorrendo à meras sugestões; Gaiman, embora tratando de um tema tão sombrio, lançou mão de um recurso bastante leve. Geoff Johns e Doug Mahnke não poderiam ser mais explícitos.

Notas e comentários especiais para geeks

[1] Muita embora HQs sejam, sem qualquer sombra de dúvida, manifestações artísticas, sob a égide do capitalismo elas são necessariamente uma arte comercialmente orientada:  podemos dizer que o destino das publicações, e ainda mais o destino dos personagens, não reside unicamente nas ‘mãos’ de seus autores, mas das flutuações do mercado – expressas, de maneira nua e crua, pelas vendas de HQs. A gigantesca maioria das revistas em quadrinhos não é publicada por seu valor artístico – mas por seu potencial econômico. Se uma revista for genial mas não vender ela será cancelada, simplesmente; por outro lado, se para contentar os fãs for necessário mudar completamente a personalidade de um herói, isso será feito.

[2] Erroneamente, a página da wikipédia dedicada ao tema “Adult comics” aponta que foi na #44 que a HQ do Vigilante entrou para o time.


 Fontes virtuais consultadas:

 

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Um comentário sobre “[+18 – gore] Um olhar apaixonado para as HQs – O lado sombrio dos quadrinhos: o suicídio

  1. Ótimo texto!
    Realmente as HQ’s tem o poder de tratar sobre assuntos dito “pesados” por nossa sociedade. Falar do suicídio só evidencia o quanto esta ocorrência assombra a qualquer pessoa, mesmo entre os heróis, até porque por detrás das máscaras e capuzes, há toda uma história de vida muitas vezes oculta no âmago de seu ser.

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