Olhar Apaixonado sobre as HQ – A Era de Ouro

Por Rodrigo Delli.

A Era de Ouro – Parte 0

O Mundo Antes dos Super-Heróis

Muitos nerds, geeks ou leitores de quadrinhos, seja lá qual for o termo que te descreve melhor, ficam revoltados quando não encontram acontecimentos como o surgimento do Super-Homem, as Guerras Secretas ou a morte de Gwen Stacy nas listas de eventos mais importantes do século XX (por ora não vou falar nada sobre aqueles que ficam enfurecidos quando não encontram “Titãs vs. Gnus”, a “Queda dos Mutantes”, “A Piada Mortal” ou “[insira aqui o nome de sua história favorita]” entre as melhores obras de ficção de todos os tempos). Acontece que Roma não foi construída em um dia e os quadrinhos, que passaram a requisitar uma posição entre as “grandes artes” com V de Vingança, Watchmen, O Cavaleiro das Trevas e Elektra Vive (para não citar uma infinidade de outras obras-primas), ainda não foram sagrados, oficialmente, “a oitava arte”. Sim, é uma triste verdade. Creio que seja muito difícil para você imaginar sua vida SEM revistas em quadrinhos, assim como é deveras penoso para mim – porém o mundo ainda está repleto de pessoas antiquadas, desprovidas de bom gosto, pessoas… enfim, como seu pai ou sua irmã, que fazem aquela cara de desprezo quando encontram uma HQ em suas mãos; como aquela gata que pensa por dois segundos antes de te responder quando você a chama para sair e torce o nariz ao perceber que você está usando uma camiseta do Capitão América… ou, ainda, como aquele valentão que reduzia seus gibis a frangalhos no 5º ano do Fundamental…

Mas vamos lá, faça um esforço: se você conseguiu guardar as 90 edições de “Noite Mais Densa” ou os 109 números de “Guerra Civil” certamente deve ter também guardado algo das aulas de história em sua memória. Algum herói da Marvel teve sua imagem rabiscada nas ruínas rupestres? Algum personagem da DC foi retratado nos hieróglifos egípcios? Havia algum super-herói na Santa Ceia? As expedições marítimas tinham como objetivo circular gibis pelo Velho Mundo? A primeira obra impressa por Gutemberg foi “A Saga de Thanos”? Durante a revolução francesa foi dito: “Se não têm Homem-Aranha que leiam Sandman”? Não, no, nyet, non, lo et nein. O Horácio e o Piteco não eram lidos por seus contemporâneos, isto é, os quadrinhos não existem desde o tempo dos dinossauros – e os super-heróis só apareceram há pouco tempo.

Dessa forma, seria interessante nos questionarmos: como surgiram essas maravilhas (MARVELS)? Como fora o mundo no qual tais criações surgiram e como viveram os nerds até então?

O surgimento dos quadrinhos

A história das histórias em quadrinhos possui informações ligeiramente complicadas e não é isso o foco aqui – muito embora seja pertinente fixarmos algumas datas e elementos para nos balizarmos. Assim, pedindo desde já desculpas por não tratar do tema extensivamente, as publicações mais antigas a veicular uma combinação de desenhos com texto são: o jornal escocês The Glasgow Looking Glass, com “Our House in Town”, de 1825; o livro francês Les Amours de Monsieur Vieux Bois, de 1827; e a revista britânica Punch, de 1841 – apontados e defendidos, sob diferentes pontos de vista, como precursores do gênero. The Yellow Kid, de Richard Outcault, aquele que é mundialmente conhecido como o protagonista da primeira HQ do mundo em sua concepção mais usual, devido à presença de balões, teve sua primeira aparição em 1894, nos EUA, e estrelou uma proto-HQ em 1897: The Yellow Kid in McFadden’s Flats.

A Era de Ouro dos quadrinhos começou em 1935, com New Fun, e aqueles que tiveram a curiosidade de procurar esta publicação viram que não há nela nenhum super-herói… Sendo assim, por que ela inaugura uma época tão especial? O que houve entre 1897 e 1935?

Muito embora o mundo inteiro tenha se rendido ao fenômeno das tiras em quadrinhos entre o final do século XIX e o início do XX, foi nos EUA que elas alcançaram sua maior expressão – e tanto a DC quanto a Marvel, tidas hoje como o lar dos super-heróis por excelência, são editoras norte-americanas.

O habitat natural das tiras eram os jornais, e na década de 20 elas ocupavam muito mais espaço do que hoje em dia. De acordo com Gerard Jones “os cadernos de domingo geralmente tinham 16 páginas, e uma única HQ chegava a ocupar uma página inteira, com todas as complexidades visuais impressas com uma riqueza de cores e uma precisão inconcebíveis em nossa era de jornais degradados”. Entre 1927 e 1928 uma nova leva de artistas começou a ir além do formato cômico, produzindo histórias mais longas e levemente mais complexas.

Gerard Jones, talvez mais conhecido entre os leitores de quadrinhos por seu período com Lanterna Verde, é quem nos ajuda a entender o surgimento da Era de Ouro. De acordo com ele no livro Homens do Amanhã, o mundo dos quadrinhos de super-heróis existe graças à conjugação de gângsteres que tinham que lavar dinheiro com geeks criativos com o cérebro em ebulição. A primeira figura de destaque em seu livro é Harry Donenfeld, um jovem judeu repleto de energia que logo passou a controlar uma boa fatia do mercado negro do álcool, em Nova Iorque dos anos 20, durante o período da Lei Seca. Ele começou a ganhar a vida com uma honesta loja de roupas, em 1918, mas quando o negócio minguou, seus contatos no submundo o levaram à ilegalidade: como precisava trazer a mercadoria de forma segura do Canadá e, também, ter um emprego respeitável, ele passou a ser sócio da Martin Press, que fora fundada por seus irmãos – e assim conseguia trazer a mercadoria escondida em caixas de papel, fazendo os dois negócios prosperarem juntos! Donenfeld era dono de uma lábia extraordinária e, com seus inúmeros contatos no submundo, expandiu os negócios da família de maneira surpreendente. Em 1929, fechou negócio com uma distribuidora chamada Eastern News, que publicava revistas sobre alguns dos assuntos mais em voga nos anos 20: fisiculturismo, pornografia e, algo muito, muito novo, a… “cientificção”?

Jerry Siegel, a segunda figura de destaque no livro de Jones, é descrito como um jovem sonhador e retraído. Nascido em 1914, caçula de 5 irmãos, ele pôde aproveitar a estabilidade econômica conquistada pela família e não teve que largar os estudos para arrumar um emprego, como muitos adolescentes no período. Desde pequeno demonstrou certos pendores artísticos, aliás estimulados pelo pai. Mas enquanto as outras crianças corriam pelas ruas, ele, míope e contrário às brincadeiras violentas, ficava em casa ajudando a mãe ou lendo. Na adolescência as coisas pioraram e, segundo os relatos, não tinha amigos. Mas as pulp magazines o fascinaram profundamente – e todo um novo mundo se abriu.

As pulp maganizes

Quando estourou em 1994, Pulp Fiction trouxe aos anos 90, ou ao menos para mim, uma referência cultural nova: as pulp magazines, revistas baratas que traziam histórias de detetives, policiais, sexo e violência bastante populares durante a primeira metade do século na América do Norte (e na esteira do filme, uma obscura editora chamada Press resolveu apostar no gênero em território nacional, chegando a lançar dois números, erroneamente cadastrados como lançados em 1986 no enciclopédico site Guia dos Quadrinhos).

A descrição que Jones faz das pulp em seu livro nos ajudará a compreender uma parte do ambiente cultural do período:

As revistas eram grossas e baratas, impressas em uma tinta de tom marrom escuro, com centenas de páginas de ficção em cada número. As capas eram coloridas, pintadas para inspirar terror, excitação, desejo e curiosidade. Os enredos eram cheios de brutamontes, orientais sinistros e namoradas seminuas de gângsteres, mas as histórias favoritas de Jerry giravam em torno de algum machão: goyim de rosto quadrado que lutavam contra feras e venciam pistoleiros com o poder do olhar. Havia revistas de guerra, westerns, além de histórias passadas no mundo do crime e na selva. Algumas eram destinadas ao público adulto, porém a maioria visava garotos de 8 a 14 anos – a “idade dos heróis”, com um editor a chamou. Não era possível encontrar essas revistas em bibliotecas escolares e poucos pais as compravam. Na verdade, muitos as arrancavam das mãos dos filhos e as atiravam no incinerador de lixo. Mas os garotos dos anos 1920 e 1930 tinham sede dessas revistas (2006, p. 51).

As pulps retratavam um mundo sombrio e perigoso. Muitas de suas capas apresentavam “laboratórios cheios de monstros ou planetas devastados”. Em agosto de 1928 a Amazing Stories trouxe algo diferente: um herói impávido, impulsionado por engenhocas 100% americanas, sugerindo um futuro grandioso e ensolarado. “Jerry correu para casa com a revista e a devorou. Depois de a ler página por página, releu tudo mais uma vez”.

O editor da revista, Hugo Gernsback, um verdadeiro entusiasta da ciência, abria cada número com um artigo sobre como a tecnologia poderia transformar o mundo para melhor. A edição seguinte, que Siegel e muitos outros aguardaram ansiosamente, trouxe uma capa igualmente singular com “apenas um brasão sobre um fundo branco: um escudo triangular com um compasso e diversos planetas ao fundo. Em duas engrenagens estava escrito ‘Fato’ e ‘Teoria’, e o compasso escrevia uma palavra estranha: ‘Cientificção’. Uma capa assim nunca tinha sido feita”. Jerry se converteu na hora à “cientificção”.

As pulps traziam muitas cartas dos leitores: o editor de Amazing Stories publicava ainda o endereço completo dos correspondentes, que assim podiam conversar entre si. Em 1929, questões econômicas fizeram Gernsback migrar para outra publicação, a Science Wonder Stories, e seus fãs foram com ele – e para se diferenciar da revista antiga, ele deixou para trás a “cientificção” e adotou o termo que todos conhecemos: ficção científica. É nesse ano que se realiza, em Nova York, o primeiro encontro do clube de ficção científica. “Passados alguns anos, os fãs cunharam a palavra ‘fandom’ [fusão de fan = fã, e kingdom = reino/domínio] para designar sua comunidade”. Siegel, que não tinha muitos amigos no mundo real, passou a se comunicar com vários leitores: “ele tinha encontrado um outro mundo, com o qual conseguia se comunicar”.

Não havia muitos garotos como Siegel. “Nas fotos dos primeiros fã-clubes há muitos óculos e poucos portes atléticos”. Eles não falavam de suas famílias, geralmente compostas por pais ausentes, “relacionamentos conturbados e solidão”. Criados em um mundo onde a cultura de massa começava a tomar forma, aquilo que você consumia ou gostava começava a defini-lo – eram garotos que preferiam o intelecto a músculos e irradiavam desprezo pelos medíocres que não os compreendiam.

Em 1929 – e se alguém ainda não parou de ler este texto mas está pensando seriamente no assunto eu aviso: agora vai esquentar! – Siegel, membro destacado do fandom, trouxe ao mundo algo autenticamente novo: o primeiro fanzine, isto é, a primeira revista criada por um fã. Ele compilou uma série de histórias que tinha enviado a várias revistas, todas recusadas, assinou-as com diferentes pseudônimos (“esperando convencer os leitores de que elas não eram o trabalho do mesmo garoto de 14 anos”) e as encabeçou com um editorial “grandiloquente”, à La Gernsback, “anunciando a chegada de uma nova revista para expandir as fronteiras da literatura e do amanhã”; preparou dez cópias e publicou anúncios minúsculos na contracapa da Science Wonders Stories.

Ao chegar ao ensino médio, Jerry Siegel conheceu Joe Shuster, um baixinho raquítico, míope e “terrivelmente tímido” que adorava tiras e tinha grande talento como desenhista. Ele tinha 14 anos quando se deparou com a capa de Amazing Stories retratada há pouco. Ao contrário de Siegel, no entanto, muitas vezes ele não tinha dinheiro para comprar as pulps, então olhava para elas fixamente, nas bancas, e tentava recriá-las em casa. Como Siegel, ele não gostava de esportes, no entanto era um fisiculturista: passava um tempo trabalhando seu corpo com pesos, polias e bastões.

Segundo Gerard Jones, eles se conheceram na redação do jornal semanal do colégio, que se chamava The Torch, e desenvolveram uma amizade sincera: “ao lembrar do passado, nenhum dos dois falaria de outras amizades. Aos 16 anos tinham enfim encontrado alguém em quem confiar”. Foi ainda em The Torch que Siegel obteve seu primeiro sucesso de público com a tira humorística Goober the Mighty.

No começo de 1931, quando a dupla que criou o Super-Homem se conheceu, começava a tomar forma um mercado voltado aos jovens. Os nerds de Humanas provavelmente já estão familiarizados com a ideia, mas a infância, tal como a conhecemos, ainda estava em desenvolvimento: muito embora crianças existam desde… bem… oras, desde sempre (teoricamente, inclusive, devem ter surgido antes dos adultos), apenas no século XVIII os pequeninos passaram a ter um status próprio e diferenciado. Foi durante o Romantismo que a figura da criança começou a ter seus traços delineados e, talvez mais importante, teve início a discussão sobre a necessidade de protegê-las das agruras da existência. A infância, fase inicial da vida de qualquer pessoa, passa a ser imaginada como um período de desenvolvimento, fase que deve ser poupada das responsabilidades e dos labores da vida adulta, e as crianças devem ser cercadas de cuidado, carinho e, fundamentalmente, ensinamento. Até então as crianças eram vistas como adultos em miniatura e não tinham, por assim dizer, roupas, acessórios ou divertimentos específicos.

Retomando nossa discussão inicial e tentando demonstrar como, por vezes, as mudanças culturais se desenvolvem de maneira complexa, é só em 1931 que a América do Norte – tida como a terra que levou o capitalismo à sua máxima potência, berço de homens capazes de fazer um esquimó comprar uma geladeira – começou a esboçar um mercado para os jovens. Em 1930 uma criança de dez anos, fã de tiras, podia influenciar a opinião do pai na hora de assinar um jornal. Lentamente os homens de negócios perceberam que se um personagem vendia bem em uma mídia ele poderia igualmente vender bem em outra. Os Sobrinhos do Capitão e Tarzan viraram filmes; reedições de tiras tinham boas vendas nas bancas; Buck Rogers surgiu em uma pulp, em 1928, foi lançado em tira no ano seguinte, e teve sua imagem licenciada para outros itens infantis, como lancheiras.

Foi necessário um certo idealismo zeloso e apaixonado para começar a imprimir as esquisitas visões de Philip Nowlan sobre o século XXV, mas os investidores que o levaram aos jornais, à telona, ao rádio, aos livros e às lojas de brinquedos examinavam-nas como se fossem um pedaço de pano. Para as crianças isso não importava: agora podiam permanecer imersas naquela realidade ingênua e vibrante a qualquer hora e por meio de quase todos os sentidos (2006, p. 97).

O Mickey, ainda tentando apontar algumas balizas que nos permitam ter uma ideia da marcha dos eventos, foi criado em 1928 – e os bichos de pelúcia, segundo a Wikipédia, em 1902… Para se perceber bem essa transição de mentalidades, essa criação de um universo para crianças, analisemos agora com fora o fenômeno em terras tupiniquins: basta observar os já clássicos Almanaque anos 70 e Almanaque anos 80 – ambos da Ediouro. Alguém notou como os brinquedos da década de 80 eram muito mais coloridos que os da década anterior, para não mencionar o quanto eram numericamente superiores? É por isso que muitos leitores da minha época tinham que ouvir, infinitamente, de seus pais, a clássica frase: “na minha infância as coisas não eram assim…”.

Cumpre destacar, talvez provisoriamente, que essa expansão econômica com vistas à participação nos domínios infanto-juvenis foi decisiva para a configuração da cultura geek tal como a conhecemos hoje. Antes da década de 30 do século XX, certamente existiram jovens inteligentes, com tendências à introspecção e fisicamente deslocados com relação aos mais fortes, mas eles não tinham um universo particular, de dimensões fantásticas, no qual podiam se especializar e, desse modo, distinguir-se positivamente dos demais, por mais que esse reconhecimento positivo ocorresse apenas dentro da comunidade geek.

O “faz-de-conta” tornava-se tão palpável e nobre quanto o “real”. Filmes, revistas, pulps, fonógrafos, tiras – tudo contribuía para proporcionar um estoque infindável de experiências emocionais e imaginativas à nova geração sem que fosse necessária a interação com a realidade. E, graças ao fandom, nasceu uma comunidade. Era possível contar com apoio para permanecer espiritualmente naquele outro mundo mesmo quando a escola ou o trabalho exigiam presença física (2006, p. 58).

Surgem os primeiros super-heróis

Voltando ao tema principal deste texto, paralelamente a essa “expansão econômica” estreava uma radionovela de detetive que logo conquistou o público com seu misterioso combatente do crime, O Sombra. Muito embora a radionovela tivesse a função de promover a pulp Detective Stories, os leitores começaram a exigir a revista do Sombra. Assim, uma nova pulp foi criada às pressas e seus números se esgotaram rapidamente, sendo que “em plena depressão econômica, em 1931, pouquíssimas revistas esgotavam”. Logo, “nos escritórios das editoras, já se usava um novo termo para definir esse tipo de personagem: ‘super-herói’. A palavra não estava nas capas das revistas, mas já fazia parte do jargão dos profissionais da área”.

As pulps aproximavam dois extremos: a violência, algo deveras assustador, e homens notáveis capazes de combatê-la. Observem a maneira lapidar como Jones define o Sombra: “aqui estava alguém que fazia a morte cair impiedosamente, como a chuva, sobre os brutamontes urbanos que matavam inocentes”.

Seis meses depois, em outubro, o Chicago Tribune Syndicate lançou uma tira com a mesma vibração: Dick Tracy, “a releitura raivosa e insana de pulps detetivescas e filmes de gângster feita por Chester Gould”.

No mesmo mês a tira de Tarzan ganhou novo fôlego sob o traço perfeito de Harold Foster; segundo Jones nenhuma figura masculina já impressa em papel barato tinha tanta graça e dinamismo.

O Tarzan de Foster era muito controlado, um macho invencível que não vestia nenhuma das fantasias de poder masculino – apenas seu corpo perfeito. Quando um garoto frágil anseia se tornar um homem, mas não sabe como chegar lá, um símbolo como o Tarzan pode ser uma revelação. Se ele não tiver pai, ou se o pai não for o suficiente, então essa revelação será ainda mais poderosa. Tarzan virou assunto de todos os garotos que gostavam de desenhar: “Foster desenha tão bem!”. Sim, ele era bom, porém não melhor do que os outros desenhistas ao seu redor. Era apenas o melhor que já tinha existido naquilo que os garotos precisavam ver (2006, p. 100).

Se você se sentiu levemente… desconfortável com o parágrafo anterior, saiba que em 1931 Joe Shuster via a coisa com outros olhos: não demorou para ele perceber que “as garotas davam bola para um herói romântico bem desenhado. Assim, garotos desajustados descobriram uma nova função para as fantasias da cultura classe B: poderiam chamar a atenção do sexo oposto se conseguissem convertê-las em algo simples, belo e romântico”. As garotas também ocupavam a cabeça de Siegel: “me apaixonei por garotas atraentes que nem sabiam que eu existia, ou, se sabiam, não davam bola. Na verdade, acho que algumas delas gostariam que eu não existisse”. (E se você não se identificou com esta frase, está comprovado: você não é um nerd!)

Doc Savage, a quarta figura a apresentar algo a mais do que os outros aventureiros que ocupavam as tiras do período, teve sua primeira aparição em um anúncio na revista do Sombra – com um epíteto em negrito: “super-homem”. Um gigante cor de mogno, Doc salvava inocentes do perigo e tinha sua própria Fortaleza Solitária “onde ia para ficar pensando”. “Antes que a revista chegasse às bancas, Jerry e Joe já sabiam que seriam seus fãs”.

Harry Donenfeld, por sua vez, sabia o que o mercado queria: sexo e emoções fortes. Em 1931 a Eastern News foi à falência, sendo sucedida pela Indepedent News Company – que, obviamente, apostava na mesma combinação. Além de publicações com alguns nus e histórias picantes, logo entraram também no mercado de detetives, com Super-Detective (1933), até perceberem que poderiam perfeitamente juntar as duas coisas e criaram a Spicy Adventure Stories.

As “Spicies” foram os primeiros grandes sucessos de Harry e ele trouxe mais dois: Spicy Mysteries e Spicy Western. E Spicy Detective saiu do gueto e entrou no mainstream da ficção, em grande parte graças às histórias de “Dan Turner, detetive de Hollywood” escritas por Robert Leslie Bellem – um mergulho em gírias detetivescas que ele mesmo havia criado, como “Meti o cano na queixola dele e disse: ‘fecha a matraca, fedorento, ou vou cuspir chumbo’”. S.J. Perelman chamou Turner de “a apoteose dos detetives particulares” num artigo para The New Yorker, “Somewhere a Roscoe”: “Espero que ninguém se ofenda com minha declaração pública de amor, mas se a Culture Publications me quiser, caso-me com ela”, escreveu Perelman (2006, p. 124).

Jerry e Joe deixaram de lado o tom humorístico de Goober the Mighty e começaram a trabalhar em outros materiais – que foram exaustivamente recusados por todos os jornais. Não havia porque desistir: faziam pequenos bicos para ganhar a vida, com Jerry realizando entregas para uma gráfica e Joe para um armazém, mas passavam boa parte das noites trabalhando, na casa da mãe de Joe. Em 1933 eles se depararam com algo muito, muito diferente: uma publicação em preto e branco que unia suas maiores paixões: ficção e quadrinhos. Uma iniciativa comercial de vida curta chamada Humor Publishing lançou quatro revistas com um personagem único e conteúdo inteiramente original – que não venderam nada e quase não saíram de sua cidade natal, Chicago. Segundo os historiadores/arqueólogos dos quadrinhos, e de acordo com Jones, estas seriam, de fato, as edições #0 dos quadrinhos modernos. Detective Dan, a edição que chegou até a dupla de amigos, não era superior à Dick Tracy, contudo deu aos garotos uma boa dose de incentivo ao demonstrar que seria possível publicar algo além do mundo controlado pelos jornais.

A companhia Eastern Color Printing, “que imprimia grande parte das seções de quadrinhos para os jornais dominicais” começou, por este período, a preparar edições de “meio-tabloide”, com reedições de tiras antigas que eram dadas às crianças como brindes pela compra de outras publicações, ou mesmo de outros produtos, como, por exemplo, sabão em pó. Em 1933 a “Proctor and Gamble encomendou 10 mil cópias” e a Eastern Color chegou a lançar mais de 100 mil exemplares de sua segunda empreitada, a Famous Funnies.

É nesse ambiente que em fevereiro de 1935 chega às bancas New Fun, a primeira publicação a apresentar, em larga escala, apenas material novo­ – e não reedições de tiras já conhecidas. Apesar de sua boa proposta, a revista capengou um pouco até começar a ser publicada pela Independent News… de Harry Donenfeld. Seu contador, Jack Liebowitz, vinha lhe dizendo que estava na hora de investir em algo mais seguro, algo mais inocente, algo que não pudesse atrair a atenção e a ira dos censores. E é em uma publicação de Donenfeld que a dupla Jerry e Joe vai finalmente estrear no mundo dos quadrinhos de alta tiragem com… Henri Duval of France, Famed Soldier of Fortune e Dr. Occult, the Ghost Detective – ambas no sexto número de New Fun, com uma única e mísera página… Empolgados, eles enviaram várias ideias ao editor da revista, o major Malcolm Wheeler-Nicholson, entre elas o Super-Homem.

Para surpresa geral da comunidade nerd… ou eventualmente para o SEU exclusivo descrédito – único leitor que ainda persiste em ler este texto – o Super-Homem ainda amargaria muitas recusas antes de figurar na capa de Action Comics #1, em 1937 e inaugurar o mundo dos super-heróis como o conhecemos… mas a Era de Ouro já havia sido inaugurada, então falaremos sobre isso em outro momento.

Para encerrar, algumas palavras magistrais de Gerard Jones:

“Em busca de uns trocados fáceis, uma novidade espetacular e um pouco de alívio para seus anseios solitários, inventaram uma forma de cultura que foi como uma revelação para crianças de todas as classes e etnias e que iria evoluir a ponto de se tornar parte da fantasia de adolescentes e adultos. Essa cultura sobreviveria por mais de 60 anos após o estouro inicial e estabeleceria a norma de entretenimento numa época muito diferente daquela em que foi criada […]. As relações que mantinham com a masculinidade, a sexualidade, o poder, a individualidade, a violência, a autoridade e a moderna fluidez do indivíduo eram tão intrincadas e profundas que seu trabalho falava diretamente às ansiedades da vida moderna – e com um conhecimento de causa que jamais julgariam ter. À medida que o tempo passava, suas criações tornaram-se cada vez mais importantes. Eles previram e ajudaram a criar a cultura geek” (2006, p. 19-20).

***

Notas e comentários especiais para geeks

Não sendo eu um historiador e tampouco um filósofo, tomo para mim prerrogativas destas duas classes de profissionais ao classificar como “complicadas” as informações que formam a história das histórias em quadrinhos – como fiz no começo do texto. Para que os leitores possam, por si mesmos, tomar conhecimento de alguns desses pontos, citarei aqui as principais fontes que consultei em minha pesquisa.

A história das histórias em quadrinhos de acordo com os “portugueses”:

Esta é a página que estou tomando como “brasileira”, muito embora seu título não seja “história em quadrinhos”, mas sim “comics”: http://pt.wikipedia.org/wiki/Comics

Esta é a página “norte-americana” sobre o tema: http://en.wikipedia.org/wiki/Comic_book

Este texto trata da história das histórias em quadrinhos de forma mais ampla, embora breve, em português e com autoria de Ralph Luiz Solera: http://www.legal.blog.br/zine/hq/hq01a.htm

http://www.heraldscotland.com/news/home-news/glasgows-world-first-comic-is-gifted-to-university.21524993

A primeira história em quadrinhos de todos os tempos?

***

Se não existe um consenso universal acerca do surgimento das histórias em quadrinhos no mundo, ao menos em Portugal e no Brasil existem dados precisos.

Aventuras Sentimentaes e Dramáticas do Senhor Simplício Baptista, assinada por Flora (provável pseudônimo de António Nogueira da Silva), foi a primeira HQ portuguesa, publicada no número 18 da Revista Popular em 3 de agosto de 1850.

Já a primeira HQ brasuca teve como autor o italiano Angelo Agostini: Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, foi publicada na revista Fluminense em 30 de janeiro de 1869.

Spicy Adventure Stories

A descrição de Gerard Jones acerca da capa da primeira edição de Spicy Adventure Stories é tão boa que não posso deixar de apresentá-la:

“A capa, magistralmente executada por H.J. Ward, deu um jeito de seguir as leis de decência pública enquanto vendia as fantasias sexuais racistas e sádicas mais obscenas. Uma donzela de pele rosada está amarrada a um poste, os lábios carnudos entreabertos e os olhos, enfeitados com rímel, esbugalhados. O corpo se contorce para tentar escapar e empurra os seios exuberantes na direção do leitor. As roupas estão rasgadas e tudo que resta é um retalho de pano branco sobre os mamilos e uma tira cor cáqui entre as pernas, com as belas curvas coloridas de seu ventre e coxas oferecendo-se ao leitor, os seios empinados pela corda que a prende ao poste logo atrás. Ao fundo, fogo. E em primeiro plano está um negro mostrando os dentes – apenas sua negritude basta para parecer violenta diante daquela maciez cor-de-rosa. Numa das mãos ele segura uma lança ensanguentada e na outra, a cabeça decepada de um homem branco, com os olhos virados nas órbitas e sangue escorrendo sobre os lábios abertos em languidez quase sexual. Era Harry se lixando para os censores. Também foi sua estreia num mercado especial de fantasias masculinas violentas. Acabou sendo um mercado muito maior do que se poderia imaginar.”

Certo… recomponha o fôlego e admita: você tinha visto tudo isso, todos esses detalhes que Jones descreveu, quando passou os olhos pela capa da primeira Spicy, lá em cima? Bem, acho que é isso o que separa os escritores de quadrinhos de… bem, nós, meros leitores.

(estas garotas podiam usar menos roupa?)

Cosmic Stories

Alguém aí se lembra do fanzine lançado por Jerry Siegel em 1929? Seu título era Cosmic Stories e foram tiradas dez cópias do “original”. Anos depois, de acordo com Jones, o autor não se lembrava se tinha vendido algum exemplar…

No primeiro texto que escrevi para esta coluna eu disse que 85% de todo acervo geek do mundo (leia-se: HQ’s, filmes, games e música) encontra-se na web. Ao que parece, as pulps ficam de fora: fiz uma pesquisa e não encontrei nada de concreto, isto é, não só não encontrei nenhuma referência sobre qualquer cópia física como, ao que tudo indica, não existe sequer uma foto da capa. Não, não há um scan. Um tesouro perdido ou um amontoado de páginas sem grandes méritos, cujo esquecimento seria antes uma benção? Eu não compraria um iate, mas gastaria exatamente a mesma quantia em um exemplar de 1929. Devo ser um nerd irremediável…


Apesar de amar as eras de Ouro e de Prata, Rodrigo Delli diz que sua alma está aprisionada na década de 80. Ele lamenta a ausência de um aficionado por quadrinhos no filme “A Revolta dos Nerds”. Após escrever este post, está se interessando por cientí… digo, ficção científica. 

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Um comentário sobre “Olhar Apaixonado sobre as HQ – A Era de Ouro

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