Divã do Provollone – Colecionismo – pt 1

Neste espaço vou contar, em diversas partes, minha pesquisa sobre o que leva as pessoas a colecionarem.

 

Colecionar, assim como toda interação do organismo com o ambiente, é um comportamento, e como tal, produz consequências e é afetado por elas. O grande problema está em querer nomear como causa, qualquer evento que aconteça junto com a emissão de um comportamento, principalmente se esse comportamento estiver associado a um sentimento. Dessa forma, afirmar que as pessoas colecionam porque sentem prazer ou porque gostam, não é uma explicação satisfatória, pois não evidencia as causas do comportamento. O comportamento de colecionar foi selecionado e por meio de esquemas de reforçamento é mantido no repertório do indivíduo (MATOS, 2001; SKINNER, 1987).

 

Slash, da banda Guns N’ Roses, e sua coleção de guitarras.

Tendo como base que comportamento é a interação do organismo com o ambiente, o que seria então pensar em realizar uma análise de algumas das contingências envolvidas no comportamento de colecionar? Para realizar uma boa análise, é preciso identificar as relações entre os eventos ambientais e as ações do organismo. Em primeiro lugar, é preciso observar um comportamento de interesse, no caso, o de colecionar, seguido da descrição das situações antecedentes e consequentes, e só ai observar quais destes eventos exercem controle sobre a resposta selecionada (CATANIA, 1999; MEYER, 1997).


Um dos principais motivadores para a realização desse trabalho, foi observar a predominância de teorias mentalistas buscando explicações para diversos tipos de comportamento, como por exemplo, o de colecionar. Isso não significa que a análise realizada aqui serve para eliminar as interpretações de outras teorias, mas sim, aumentar o campo de estudo sobre o assunto e impedir o reinado absoluto de uma única abordagem. Um outro ponto é que essas abordagens enfatizam variáveis intra-individuais como motivadoras (ex. vontade, prazer, atitude), o quê, de acordo com a Análise do Comportamento, tais explicações não se mostram capazes de prever e controlar satisfatoriamente o comportamento.

Jian Yang, colecionador de bonecas Barbie de Cingapura

A dificuldade em desenvolver uma explicação do porquê das pessoas colecionarem está no simples fato de não existir um único motivo que explique esse tipo de comportamento. Estudar o comportamento se torna importante então, para avaliar a influência dos antecedentes e consequentes no comportamento de colecionar e compreender a função do mesmo, com base em uma teoria que se propõe a fazer uma ciência do comportamento.


O levantamento de variáveis que influenciam no comportamento de colecionar será realizado observando, os reforçadores disponíveis no ambiente para os colecionadores e também as consequências aversivas produzidas por esse comportamento. Com relação a esse último ponto, existem relatos de situações onde os indivíduos estouram o limite do cartão de crédito ou até roubam para manter a coleção. Esses comportamentos podem trazer prejuízos não só para a vida do colecionador, mas também para a vida das pessoas que convivem com ele.

Parte da coleção de sapatos da Khloe Kardashian

A questão então, vai muito além de descobrir o motivo pelo qual uma pessoa coleciona, e passa a ser então, descobrir formas de evitar que essas consequências aversivas que acompanham o comportamento alvo, no caso, o comportamento de colecionar, possam ser evitadas para que aconteça uma melhora na qualidade de vida dos colecionadores. Percebe-se que o problema não está na prática de colecionar em si, mas em alguns comportamentos que acompanham essa prática.


Apesar disso, o trabalho não tem como foco central essas consequências aversivas. Portanto, é importante destacar que o colecionador abordado, não é aquele de origem patológica como observado, por exemplo, no transtorno obsessivo compulsivo, mas sim, aqueles indivíduos que emitem o comportamento de colecionar numa freqüência adequada ao contexto, ou seja, que possuem pouco ou nenhum prejuízo com a emissão desse comportamento. Além disso, um dos principais objetivos deste trabalho, é deixar evidente algumas das contingências estabelecidas dentro da classe de comportamentos de colecionar.

Esse texto também foi publicado no PsicoCor.

Autor: Léo Provollone


Léo é formado em psicologia, coleciona quadrinhos, bonequinhos e casos de bebedeira. Além de seus sérios problemas com TOC, como separar seus imãs de geladeira com uma régua, Léo considera HOUSE a melhor série já feita pelo homem, apesar de nunca ter assistido o último episódio.

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