Exercício de imaginação e discussão científica: “A Mosca”, de David Cronemberg (1986)

Uma das características que distingue os homens e as mulheres dos demais animais é a teleologia – a capacidade/habilidade/possibilidade de projetar algo. Castores e abelhas, para usar o exemplo mais básico, projetam e constroem, dentro de certas medidas, seus lares – mas dentro de modelos bastante repetidos e semelhantes; talvez estejam usando o mesmo modelo desde sempre e ainda o utilizem por muitos séculos, senão para sempre. Agora pensem acerca das habitações humanas, das ocas indígenas aos iglus, dos barracos que compõem favelas às maravilhas arquitetônicas de Dubai. Bem, acho que deu para pegar a ideia.

   A teleologia nos permite planejar o conteúdo de um dia mas também de um ano; nosso próprio futuro e, em diversos níveis, o destino de coletividades. Enquanto um ser social, os homens e as mulheres não apenas refletem sobre si, mas sobre seus familiares, sobre as coletividades em que se inserem e, em níveis macro, acerca de toda a humanidade.

   Quando isso teve início é incerto, embora, como tudo o mais, deva ser assim desde sempre – e quando o nosso ancestral mais remoto resolveu descer das árvores ele já devia ter algo em mente; no entanto, diversos artefatos culturais dão conta das reflexões e expectativas de homens e mulheres do passado acerca do futuro – e é muito curioso observar o contraste entre aquilo que “se realizou” e o que “não se realizou“.

   No filme A mosca, de David Cronemberg, de 1986, temos uma alta aposta no tele transporte – algo muito comum em desenhos, filmes de ficção e quadrinhos. O filme apresenta o ‘supostamente’ excêntrico [perto dele o Marcelo parece um gentlemen] cientista Seth Brundle e sua fantástica criação: uma máquina de tele transporte. Embora sua criação não esteja completa, dentro dos padrões científicos clássicos, visto que ainda não foi plenamente testada, ele resolve revelá-la para uma jornalista como uma forma de seduzi-la – o que funciona perfeitamente. Acontece que, durante um momento de irritação, levemente bêbado e sem refletir muito, ele se voluntaria em ser o primeiro homem a ser tele transportado – mas ocorre um pequeno imprevisto: uma mosca entra na máquina, com ele, e, sem saber o que fazer, o computador resolve fundi-los em um mesmo ser. Seth começa a se transformar em uma mosca, lenta mas assustadoramente, e o filme se encerra de forma demente e perturbadora.

    Como já foi canonizado pelos críticos: Cronemberg tem uma obsessão pelo avesso do corpo humano – e o filme pode ser visto como uma reflexão sobre as relações entre o homem e a ciência, bem como entre o homem e as máquinas. Há algo de imprevisível, de inexplicável na realidade que nos foge – mas teremos de lidar com isso, custe o que custar. Nada indica que o final tenha que ser tão terrível quanto o destino de Sett Brundle – mas é nessa interrogação suspensa que o diretor marca sua inspirada criação artística.

   Em sua discussão sobre as relações entre os homens e a ciência, com diversos elementos futuristas, o filme de Cronemberg tem em um computador um ponto determinante da narrativa – e embora a temática do tele transporte e, de maneira menos trabalhada, a questão do cruzamento de DNA’s também impliquem em especulações científicas, certamente a importância do computador foi o que mais me inquietou. Discutir a importância e a posição dos computadores na atual conjuntura da humanidade não é o meu ponto, e certamente eu não teria fôlego para tanto; o objetivo do presente texto é colocar em pauta algumas representações futuristas de algumas décadas atrás, mais especificamente da década de 80, à luz do que vivenciamos e conhecemos hoje.

O filme

[spoiler alerta: este tópico narrará de forma extensa e pormenorizada o filme]


 

   “Eu estou trabalhando numa coisa que vai mudar o mundo e a vida humana como nós a conhecemos”, diz o desajeitado cientista Seth Brundle à bela, ainda que evidentemente entediada, jornalista Veronica ‘Ronie’ Qualife em uma mostra científica da Industria Bartok. Apesar dela não estar muito interessada, ele a convence a visitar seu lar/laboratório para uma amostra em primeira mão. Durante o caminho, no carro da moça, Seth se mostra levemente enjoado; ela lhe pergunta se foi a bebida, mas ele diz que não gosta de movimento  Ele lhe apresenta a ‘capsula’, que ela toma por uma ‘cabine telefônica moderna’, e para poder demonstrar seu funcionamento ele pede algo que seja estritamente pessoal, “como uma peça de roupa ou uma joia”. De modo ousado e inusitado, ela retira sua meia calça que é colocada na capsula – e então Seth aciona um computador e inicia a ‘sequencia de tele transporte’: há um clarão e a meia calça desaparece. “Grande!”, exclama Ronie, “o maior forno de microondas do mundo”. Com olhar maroto o cientista a conduz até uma segunda capsula, onde encontram a meia calça exatamente como ela havia sido disposta na capsula anterior. A repórter se mostra aturdida – e quando Seth lhe revela que está trabalhando com tele transporte ela percebe estar diante de algo grande. Começa, finalmente, a gravar a conversa entre eles – mas o moço diz que não pode falar sobre o que está fazendo e pede que ela lhe entregue a fita. Ela então se retira.

No dia seguinte ela está na redação da Revista Particle, relatando sua experiência ao editor Stathis Borans, aliás seu ex-namorado – que não acredita no relato da moça. Seth aparece, subitamente, e a convida para um almoço – quando diz que ao invés de escrever um artigo ela poderia acompanhar todo o processo e escrever um livro. Ronie passa a acompanhá-lo, filmando todos os experimentos. A princípio, o maior desafio está em tele transportar seres vivos – ele faz um teste com um babuíno e o resultado é catastrófico. A proximidade entre eles dá origem a um romance e, após uma transa, ele tem um insight, ao ouvir a moça falando sobre ‘a carne’. Ele faz um novo teste com um bife e pede a ela que o experimente. “Tem um gosto esquisito”, diz ela, “tem um gosto sintético”. À partir da transa que tiveram ele reprograma o computador.

Paralelamente, Stathis começa a perseguir Ronie, enciumado – mas ela afirma que é livre e pode ficar com quem quiser. De volta ao laboratório, eles fazem um novo teste com um babuíno e finalmente dá tudo certo – é necessário fazer alguns testes com o animal, para verificar se está tudo bem, mas eles julgam que tiveram sucesso. Quando estão comemorando, no entanto, Ronie encontra um envelope enviado por Stathis, com a prévia de uma matéria sobre a invenção, e ela diz que precisa sair, argumentando que ainda existem ‘resquícios’ de um outro relacionamento e que precisa “acabar com isso de uma vez por todas”. No escritório da Particle ela convence Stathis a não publicar a matéria, com a condição de não sair da vida dele. Brundle, contrariado, enche a cara e resolve se voluntariar a ser o primeiro homem a ser tele transportado – sem perceber que uma mosca entrou com ele na cápsula.

   Aparentemente o experimento é um sucesso: ao sair da capsula, conversando com o babuíno, ele se pergunta: “agora eu sou vivo ou cibernético?”. Pequenas mudanças começam a aparecer: Seth consegue apanhar uma mosca em pleno voo e passa a demonstrar grande força e agilidade; surgem estranhos e duros pêlos em suas costas. De todo modo, ele julga que ao ser desintegrado e em seguida reconstruído, átomo por átomo, ele foi purificado, estando mais apto a desenvolver a totalidade de seu potencial humano. Ademais, começa a falar e agir de modo acelerado, como se os outros não o acompanhassem. Diz que quase não precisa mais dormir e começa a se alimentar só com doces. Empolgado, ele pede à Ronie que entre na máquina mas esta se recusa e ele se irrita profundamente. Sai como um louco e vai a um bar, onde aposta uma partida de braço de ferro com um indivíduo fortão, quebrando seu pulso; sai do bar com uma biscate e a leva ao laboratório. Ronie aparece e diz que ele está “horrível”, que algo saiu errado no experimento. Diz que mandou um dos pêlos removidos das costas de Seth a um laboratório e que o resultado foi assustador: o pêlo não era humano, mas sim de um inseto. Ele fica irritado, diz que ela está com inveja e deseja boicotar a experiência – “o nosso trato não vale mais”, diz ele ao expulsá-la de casa.

   Ele se olha no espelho e descobre que está ficando diferente, seu rosto apresenta algumas marcas estranhas. Uma de suas unhas cai. “Estou morrendo”, diz caindo em si, “é assim que começa”. Ele consulta o computador, que revela que um segundo elemento foi tele transportado com ele. Seth pede ao computador que mostre a cena e finalmente descobre que havia uma mosca na primeira capsula. Ele então pergunta ao computador se houve uma assimilação – mas este responde friamente que houve uma fusão: “fusão do Brundle e da mosca no nível genético molecular”.

   Quatro semanas depois o cientista liga para Ronie e pede que ela vá encontrá-lo, dizendo que

piorou muito. Quando ela entra no laboratório/lar encontra uma grande bagunça – Brundle mosca aparece usando bengalas, com dificuldade para andar; seu rosto está inchado e avermelhado, como se a pele estivesse a ponto de desprender. Ele diz que está doente, que a cada dia ocorre uma nova mudança, como uma espécie de câncer que o desintegrará por completo. Ele revela que havia uma mosca junto com ele na capsula e que o computador se confundiu ao observar dois padrões genéticos distintos, optando por fundi-los em um só. Ele pega uma rosquinha para comer e vomita sobre ela, o que causa repulsa na moça; pede desculpas, envergonhado, e sua orelha cai da cabeça. Desesperado, ele pede que ela o ajude.

Ronie busca a opinião de Stathis, que diz a ela para se afastar do cientista. Como ela se recusa, ele pede para que ela filme tudo enquanto ele pensa em uma alternativa. De volta ao laboratório/lar ela encontra Brundle mosca no teto, como uma mosca; ele se mostra empolgado, psiquicamente instável, dizendo que finalmente percebeu o propósito da experiência – tornar-se algo diferente, algo nunca visto, uma mosca de 80 quilos. A moça está aterrorizada mas ele diz a ela que há muito a ser filmado para a posteridade: então se senta à mesa e mostra que, como uma mosca, ele não pode mais mastigar os alimentos – é necessário lançar sobre eles uma enzima corrosiva e depois recolher tudo novamente. Stathis, mais tarde, assiste ao vídeo aterrorizado – ao passo que Ronie passa mal por outra razão: está grávida de Seth.

   Cada vez mais monstruosos, Brundle mosca consulta o computador em busca de uma “resposta” para o problema e a máquina responde, no sentido mais literal do termo, que a única forma de reverter o processo seria realizar uma nova fusão com elementos puramente humanos, com o objetivo de diminuir a porcentagem de mosca no ser Brundle mosca. Ronie aparece, bastante nervosa, com a intenção de contar a notícia de sua gravidez ao futuro papai, mas Brundle mosca diz que ela deve ir embora para nunca mais voltar, pois o inseto dentro dele despertou e que ele irá machucá-la. Transtornada, ela sai do laboratório/lar e diz a Stathis, que a aguardava no carro, que deseja abortar, pois tem medo do que pode estar dentro dela.

   Stathis leva Ronie a um hospital para fazer o aborto, mas subitamente Brundle mosca aparece, quebrando uma janela, e a leva embora. Emocionado, ele implora para que ela tenha o bebê, dizendo que o futuro ser pode guardar os últimos sinais do que havia de humano nele, mas ela diz que está com medo. Stathis vai ao laboratório/lar munido de um rifle. Brundle mosca subitamente o ataca, vomitando sua enzima corrosiva na mão do rival, que em segundos é reduzida à ossos; a criatura vomita novamente sobre o pé do moço, que logo é desintegrado. Quando a criatura está prestes a vomitar sobre o rosto de Stathis, Ronie a interrompe, pedindo que não o mate. Brundle mosca, completamente insano, tenta, então, convencer a moça a entrar na máquina, para que ela, o filho que esperam e ele sejam fundidos em uma “família” completa. Naturalmente ela se recusa e se debate; partes do corpo de Brundle mosca caem, à medida que formas da mosca começam a se tornar mais proeminentes, concluindo a transformação; a criatura lança Ronie dentro da capsula, aciona a máquina e entra, por sua vez, em uma segunda capsula designada para fusão. Stathis desperta e consegue libertar a moça; a mosca gigante, por sua vez, tenta sair de sua capsula, quebrando por dentro o vidro e abrindo a porta,  mas o processo é ativado no momento em que ela estava com parte do corpo para fora…

   Quando a terceira capsula se abre o computador anuncia, com sua frieza habitual, a bem sucedida fusão de uma nova criatura, a grotesca junção de Brundle mosca e a própria capsula. O ser que se arrasta ecoa elementos da ficção de HR GIGER, algo inominável. Transtornada, Ronie pega o rifle, antes como defesa do que desejando atacar: ela visivelmente não pretende disparar. Em uma cena de emoção ímpar, durante um último lampejo de consciência, o mostro segura a ponta da arma e a direciona para sua cabeça, implorando por piedade. Mortificada, Ronie dispara contra a cabeça da criatura, que tomba ao chão.

Metodologia científica


Para além da narrativa geral do filme, apresentada no tópico anterior, temos um corpo científico que pode ser pormenorizado. Se a ideia lhe parece um porre, avance logo para o próximo tópico.

   Bem, para os que ficaram, aqui vai um apanhado do que temos no filme – e como não sou físico, pode ser que minha análise seja grosseira como a de um gorila: Seth diz que não fez tudo sozinho, mas que contou com a ajuda de diversas mentes brilhantes que colaboraram com diversos pequenos elementos isolados: “digo que me construam um laser, que desenhem um analisador de moléculas”. “Depois eu junto tudo”, resume ele, mas “nenhum deles sabe que projeto é esse”. Como sabemos, ele sempre ficava enjoado quando “em movimento”, fosse em um velocípede, em um carro ou em um avião. Desse modo, sua invenção beneficiará toda a humanidade, sem dúvida, mas parte de uma questão pessoal.

Fundamentalmente, ele tem um capsula conectada à um computador e, há alguns metros, uma segunda capsula. O computador exige um registro de voz para ser acessado, provavelmente uma medida de segurança. Uma vez acionada a sequencia de teletransporte, a porta da capsula 1 é travada e seu conteúdo é analisado quanto à composição estrutural, tanto em dados como peso e dimensões como, mais especificamente, quanto à composição química: poliéster, no caso da meia calça, ou “forma de vida orgânica baseada em carbono”, no caso de um ser vivo. Feita a ‘decomposição’, o ‘objeto’ desaparece – o computador exibe uma sequencia de códigos e então, na segunda capsula, o ‘objeto’ aparece.

   Como já mencionamos, considerando uma das falas do início do longa, tudo sempre deu certo com objetos “inanimados” [notemos que ele não diz orgânico ou não orgânico, mas utiliza um termo que pode ser tomado como ‘envolvendo movimento’]. Ao que tudo indica, ele já fez experimentos com objetos animados, mas não diz o que houve porque estão em um restaurante… Mas logo é feita uma primeira experiência com um ‘ser animado’, mais especificamente um babuíno, e temos uma ideia do que ele quer dizer:

   Tentando refletir sobre o que ocorreu, ele simplesmente diz: “acho que virou babuíno do lado avesso”, dizendo que aparentemente o computador não sabe “manusear a carne”, “nada que é vivo”.

a capsula A
o computador

Questionando o filme 


   De saída, precisamos notar que computadores não “pensam”, literalmente – eles apenas executam programas, com parâmetros predefinidos por aqueles que o programaram – ou, como o próprio Seth afirma, com certa exaltação, em um dado ponto do filme: “os computadores são burros, só sabem o que você diz”. Um computador, de qualquer natureza, não pode responder a uma pergunta, isto é, não pode apresentar uma solução para qualquer tipo de problema que ele já não conheça; ele pode ‘acumular’ milhões de informações e as ideias de infinitas pessoas, pode cruzar e combinar dados, mas não pode criar, seja por dedução ou indução, qualquer dado novo, que não tenha sido anteriormente acrescentado em seu ‘banco de dados’, sua ‘memória’.

   Embora com esta observação eu esteja refutando, particularmente, a cena em que o computador apresenta a Seth uma resposta para seu problema [especialmente considerando que ele mesmo já havia postulado que computadores ‘são burros’], também já estou refutando o motor do filme – a dimensão mal fadada do experimento, o cruzamento de Seth com a mosca.

Tal como eu consigo conceber a possibilidade do funcionamento de uma máquina de tele transporte, ela tele transportaria todo o conteúdo da capsula na exata medida de suas medidas, isto é, como uma fotografia – o conteúdo da capsula seria ‘congelado’ por um instante, descontruído molecularmente e então reconstruído molecularmente na outra capsula, exatamente como estava até então. Quando digo isto estou pensando de maneira radical, com os princípios mais básicos da física: nada se cria, nada se perde – de modo que o ar também conta, visto que o espaço nunca é vazio [podemos supor que o programador do processo em andamento tenha programa o computador a, intencionalmente, descartar o ar e se concentrar apenas no objeto presente na capsula – nesse caso, ao identificar dois corpos ao invés de apenas um, no experimento inicial, julgo que ele antes pararia o processo do que decidiria, por si próprio, realizar uma fusão]. A máquina capturaria um ‘bloco’, no ponto A, literalmente um fragmento do tempo, e o levaria ao ponto B, como o mesmo bloco, que retomaria o movimento na sequencia – o que o próprio filme poderia referendar, em alguma medida, visto que os objetos inanimados são ‘reintegrados’, na segunda capsula, exatamente na posição em que foram dispostos na primeira. De qualquer forma, aplicando o modelo que estou proprondo à cena do filme, a segunda capsula conteria Seth E a mosca, não uma fusão entre ambos – pois a decisão de fundi-los foi do próprio computador, o que seria impossível de acordo com o que postulei acima. Oras, bem sei que a ciência e, em especial, a realidade, opera com mecanismos próprios que não necessariamente obedecem nossos postulados – e sei, ainda mais, que estamos diante de uma obra de ficção, onde seu (s) autor (es) tem poder de criação absoluto, mas no plano da crítica tudo é passível de discussão. Desse modo, julgo que o resultado da experiência foi antes o que o diretor desejava e necessitava para desenvolver sua narrativa, mas não algo razoável dentro da própria lógica do filme ou do que seria cientificamente possível.

ESPECULAÇÃO RADICAL


   Tomo a liberdade de discutir tudo isso à partir de uma cena descartada do filme – quando Seth funde, intencionalmente, um babuíno e um gato, provavelmente com o objetivo de estudar um processo de fusão e, assim, compreender o que se passa e, possivelmente, viria a acontecer consigo mesmo. Estamos falando de uma cena deletada, que não foi incluída no filme por alguma razão – mas ainda que ela não nos permita qualquer especulação acerca do conteúdo oficial do filme, ela opera com elementos da discussão central da narrativa de Cronemberg. Ao contrário do que houve na primeira fusão, que foi ‘decidida’ pelo computador, agora a fusão, deliberada, é projetada pelo computador à partir do postulado por Seth: o computador apresenta a seguinte imagem, como uma ‘suposição’ do que será criado:

   O ‘resultado final’ que Seth encontra na máquina, no entanto, não se parece exatamente com o ‘suposto’ pelo computador: o ‘híbrido’, certamente perturbado e confuso pelo que acaba de ocorrer, parece estar sofrendo – e não há tempo para nos certificarmos de que: a) isso decorre da situação em si, sem dúvida completamente nova, visto que os dois animais tiveram suas estruturas físicas abruptamente alteradas para algo não apenas novo como grotesco; ou se: b) algo não saiu como planejado – afinal, máquinas podem falhar. Não sabemos se o ‘híbrido’ está amedrontado ou sofrendo – ele salta no colo de Seth e o fere, fugindo na sequencia. É nítido que algo está errado – e Seth mata a criatura, não sabemos se por piedade ou se por temor.

   Seja como for, temos algo novo aqui: antes de concluir a fusão, o computador quantifica, percentualmente, quanto de cada ‘objeto’ será aplicado na fusão: 52% do babuíno e 48% do gato. Oras, isto não foi feito no primeiro caso, e embora a cena deletada não nos autorize a questionar o filme ‘oficial’, nada nos impede de refletir sobre a fusão original à luz desta colocação: quanto de cada ‘objeto’ inicial, isto é, de Seth e da mosca, foi ‘combinado’ para resultar no ‘final’? O que o computador levou ou poderia levar em consideração? Objetivamente, a pergunta é: por que tivemos um homem que lentamente se transformou em uma mosca [o que por si só contraria a ideia de fusão, mas creio que já temos muita especulação por aqui e apenas deixaremos esta reflexão no ar] e não um híbrido de homem x mosca, combinando elementos dos dois?

   Certo, estamos sobrepondo especulação sobre especulação, mas prometo que estes serão meus devaneios finais: a chave da questão, presente na segunda fusão mas não primeira, é um discussão implícita sobre as propriedades da matéria. Embora a vida seja algo ainda inexplicável, estamos falando de corpos físicos – e estes podem ser decompostos, analisados e, assim, explicados. O que quero dizer é: se o computador fundisse 100% de Seth e 100% da mosca, ainda que difusamente, o resultado seria algo irrisório, algo menor que uma berruga, se concentrado, mas insignificante, se disperso. Se a ideia fosse, como a segunda cena sugere, diante do projeto final, avaliar quanto de cada um seria necessário para uma fusão “ideal”, respeitando-se as dimensões físicas de cada corpo, algo do tipo 99,5% de Seth e 0,05 de mosca, teríamos algo tão inofensivo ou ainda menos letal do que a divagação anterior. Se, por outro lado, fosse previamente projetado que seriam utilizados 50% de cada um… deveríamos supor que metade de Seth desapareceria [e aqui ficam duas perguntas: 1) para onde iriam estes átomos, dentro da postulação clássica de que na natureza “nada se cria e nada se perde”; 2) como o computador escolheria o que ‘cortar’? O lado esquerdo? A parte de cima?] e a outra metade seria conectada, de maneira simples e direta, à uma metade de mosca? Ou poderíamos julgar legítimo o raciocínio utilizado no filme, de que haveria uma fusão, uma combinação, entre os dois corpos? Oras, o primeiro raciocínio me parece mais apropriado à uma máquina fria e objetiva. No entanto, tomemos como válido o segundo postulado: por que imaginar que o resultado seria algo esteticamente viável dentro dos padrões humanos, visto que quem está ‘raciocinando’ é uma máquina, para quem a vida de uma alface e de uma pessoa é igualmente lógica/ilógica? Por que o resultado teria que ser a expansão dos caracteres mosca, em um híbrido digno de nossas especulações provindas da ficção científica, dos games [sei que todo mundo imaginou um dos chefões de Teenage Mutant Turtle] e dos filmes B? Por que o resultado não poderia ser algo completamente bizarro e inesperado, viável do ponto de vista biológico ou não?

   Por fim, voltando diretamente à fusão apresentada na versão oficial do filme, de maneira conclusiva: embora tome um arcabouço científico e futurista para conduzir a narrativa de seu filme, Cronemberg nos apresenta uma visão poética e trágica demais; decerto uma virtude do cinema, que toma a ciência como mero trampolim.

É aqui que lanço minha deixa para o Marcelo discutir a questão do tele transporte, seja dentro do que atualmente a física concebe como cientificamente possível, seja no plano das especulações mais loucas.

Quer saber como funciona um teleporte? Confira o link!

 

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Um comentário sobre “Exercício de imaginação e discussão científica: “A Mosca”, de David Cronemberg (1986)

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