Olhar Apaixonado para as HQs – A evolução do Superman

Por Rodrigo Delli e Marcelo Rubinho.

Fazem algumas semanas que começamos a discutir um dos assuntos mais importantes da história da huma… quer dizer, da “geeknidade”: por que Action Comics #1 é considerada a revista mais rara e, consequentemente, mais cara de todos os tempos?

Temos certeza que você leu, mas para refrescar sua memória aqui vai um apanhado bem sumário: Action Comics #1 NÃO é a revista mais cara do mundo por ser a mais antiga – antes dela foram publicadas muitas outras; tampouco é a revista mais cara do mundo por ter poucos exemplares conhecidos – aquele zine que você editou com seu primo, anos atrás, por exemplo, cujo único exemplar conhecido hoje pertence à sua avó, bpage00acover-222x300em como infinitas outras publicações, podem perfeitamente possuir menos cópias conhecidas, talvez mesmo nenhuma – mas não é isso o que faz da primeira aparição do Super a HQ mais rara/cara do mundo. Embora possa soar ingênuo, apenas para eliminarmos todas as hipóteses, Action Comics #1 NÃO foi impressa em qualquer tipo de papel especial – foi o bom e velho papel de gibis que você já conhece. Sendo assim, por que ela é tão valiosa?

Como bons nerds que são, vocês, leitores, certamente estão levantando a mão com algumas teorias particulares, exatamente como faziam nas aulas do ensino fundamental – e é possível que 80% de vocês estejam corretos. Até o presente momento deixamos de lado apenas duas particularidades da Action Comics #1: seu conteúdo e sua dimensão simbólica.

Publicada em junho de 1938, a primeira edição de Action Comics tinha 64 páginas com histórias coloridas e em preto-e-branco (meu scan de uma edição original não tem propagandas, mas não posso dizer que estas não tenham sido publicadas, visto que isso era muito importante na época). O Super-Homem encabeça a publicação (13 páginas), seguido pelo cowboy Chuck Dawson (6 páginas), o Mágico Zatara (12 páginas), um conto do capitão marítimo Frank Thomas (2 páginas), a dupla cômica Estica e Espinha (4 páginas), o aventureiro histórico Marco Polo (4 páginas), o boxista “Pep” Morgan (4 páginas), o repórter Scoop Scanlon (6 páginas), e o aventureiro Tex Thomson (12 páginas). Nove histórias portanto – contudo, apenas uma decisiva, marcante: a estreia do Super-Homem.

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Os créditos pela publicação, na contracapa.

É bem possível que você já tenha lido a primeira aventura do Super-Homem, pois ela foi publicada diversas vezes em terras tupiniquins. Ao menos na minha geração, a Abril lançou um fac-símile (isso é, uma reprodução idêntica) no kit do Retorno do Super-Homem, em setembro de 1994; a Panini publicou a estreia do Homem de Aço no primeiro encadernado da série Coleção DC 75 Anos, dedicado à Era de Ouro, em novembro de 2010.cimg4523

A história? Bom, não é exatamente uma Brastemp… quer dizer, creio que ela não agradaria muito os leitores de hoje… mas acontece que tudo o que os leitores de hoje já leram deriva, de algum modo, de um universo que se formou à partir dela – e assim chegamos, finalmente, ao centro da questão: Action Comics #1 não vale uma fortuna (literalmente!) pelas histórias que guarda em si, visto que apenas 1 das 9 aventuras publicadas importa; e tampouco vale milhões por conta dessa única história. Action Comics #1 é a HQ mais rara do mundo por tudo o que inaugura, por trazer ao mundo uma das maiores e mais emblemáticas figuras do século XX: o Super-Homem.

Não me julgo capaz, neste momento, de falar sobre a importância do Super-Homem, personagem que transcendeu muito o universo das páginas dos quadrinhos. Optei por convidar um grande fã do herói: Marcelo, o Procrastinador.superman-logo-simbolo

Meu parceiro, Rodrigo Delli, pediu para que eu tocasse um tanto a bola por aqui. Isso porque a revista Action Comics #1 estava em leilão e ninguém pensou em comprar pra mim, e olha que tá barato! Mas ainda discutindo o porquê dessa p*%$ valer tanto, analisamos a evolução do Super, não apenas seu design como também o personagem em si.

Olhem a imagem acima e notem a evolução de seu símbolo assim como algumas versões alternativas de certas sagas. Basicamente temos a constância do pentágono e a importância do “S”. Tá, e daí? Isso ilustra o quanto o personagem mudou.

Vamos falar do Super! E, sim, gosto muito dele, aliás gosto também do Capitão América apesar de as pessoas normalmente não gostarem, devido a seu caráter de soldado estadunidense, mas essa é outra história. O Super simplesmente é a encarnação do que é bom, do que um herói deve ser, e uma verdadeira inspiração. Por mais que você goste do Deadpool e ache legal esse jeito meio bad boy, um super-herói de verdade deve ser um exemplo a ser seguido, um que seja inquestionável, e este é o Super.  Sim, ele serve como a representação perfeita do bem.superman-costume-history

Desde sua criação até os dias de hoje, o Superman tem passado por diversas repaginadas. Na verdade, a intuito ao criar o personagem era fazer dele um vilão, porém isso não deu certo e o reformularam para ser um hersupermanisabaddad_bd8594_4546372ói. Contudo, em sua concepção inicial, o Super não era o exemplo dos escoteiros que conhecemos hoje (observe o que ele fez com o presente de Jimmy na capa ao lado… vocês tiveram vontade de fazer algo assim com seus presentes de Natal?).

Muitos conceitos surgiram depois. Todos estão cansados de saber que inicialmente o Super apenas pulava, não voava, da mesma forma que poderes como o “supersopro” e até mesmo a ideia da kryptonita são fatores que surgiram muito, mas muito depois.

Enfim, nas décadas de 40 a 70  o Super passou por vários problemas, como a “década perdida“, mas suas histórias possuíam cunho infantil, com argumentos bobos e algumas vezes bizarros.

Da Era de Ouro à Era de Bronze o Superman ganhou vários poderes, como o superbeijo (ele beijava a Lois e ela esquecia quem era, onde estava e onde até onde estava o Wally), o super-hipnotismo (que é considerado o culpado por ninguém perceber que o Clark parece muito com um Superman de óculos), a supermodelagem de rosto (ele modelava o próprio rosto para parecer quem quisesse, mas não usava para se disfarçar de Clark), o  superventriloquismo (que faz isso aí mesmo mas de um modo “super”) e até mesmo a supercriação de mini-supermen… que… bem… permitia a ele… cara, o pessoal fumava naquela época… Fora que o Super era praticamente imortal, com capacidade de mover mundos, voltar ao passado, transformar carvão em diamante e vice-versa (brinks).

krLembra que eu falei que a kryptonita veio depois? Pois é, quando a ideia da kryptonita apareceu, que, aliás, surgiu em um programa de rádio (e não nos quadrinhos), ela veio em um milhão de cores diferentes. É uma festa de arco-íris: além da verde, que mata o Super, existe a vermelha, que é imprevisível, podendo tanto tirar seus poderes quanto encolhê-lo, mas sempre com efeitos temporários; a kryptonita dourada pode tirar seus poderes para sempre; já a azul tem o mesmo efeito que a verde, só que apenas em criaturas do mundo bizarro. E isso porque nem falei da roxa, da prateada, da branca… enfim, as kryptonitas apareciam como lápis de cor numa caixa da Faber Castell.

superpet

Outra coisa engraçada era a presença dos supermascotes. Sim, você leu direito: os superpets!

Normalmente todo mundo conhece o Krypto (o supercão), mas ninguém lembra do Cometa (o supercavalo), do Faísca (supergato) e do Proty (o supermacaco). Porque salvar os kryptonianos não deu, mas esse zoológico foi fácil! Incrível como em Krypton os animais também são iguais aos nossos…

BYRNE… E PRONTO!

Então, só recapitulando: o Superman era imortal, existiam milhares de dimensões alternativas, o Super brincava de deus indo e vindo pelo tempo e tinha uma cacetada de poderes, havia milhões de kryptonitas, além, é claro, dos superpets, ou seja… era uma zoooona!

Pensando em arrumar um pouco a casa e fazer um reboot (não, não os Novos 52, calma), nasceu a “Crise nas Infinitas Terras“, minissérie responsável por eu ler quadrinhos até hoje. Quando eu a li, percebi que havia tanto herói que eu nunca tinha visto que não parei mais de ler! Afinal, “Como eu ando perdendo tudo isso?!”.

superman-kills-zod-man-of-steelEnfim, a Crise botou ordem na casa, e então chamaram o senhor Byrne para botar ordem no Super, recontando sua origem e tudo mais. E cara… cara… cara! Que ordem! Primeiro, Byrne diminui os poderes do Super; chega de superpoderes bizarros, chega de arco-íris de kryptonitas! Nas histórias de Byrne tinha apenas a verde e algumas aparições da vermelha. Chega de supermascotes. Chega de Superboy (segundo Byrne o Super só ganhou seus poderes de forma completa na sua fase adulta e só resolveu atuar como herói depois disso).  E assim ele deu umreboot fantástico para o Super. Ele se tornou mais sério, mais bondoso, e essa é a base do Superman que vocês conhecem hoje!

E uma coisa interessante, para aqueles que assistiram Homem de Aço (2013) e ficaram horrorizados com o Superman matando o Zod: isso aconteceu nos quadrinhos, e, inclusive, o filme teve muitas citações disso, tudo da era Byrne!superman-kills-zod1988-by-john-byrne01

general-zod-mattel-superman-christopher-reeve-marvel-10533E olha que nos quadrinhos o Super foi bem mais cruel, pois mesmo tirando os poderes de Zod e seus asseclas, Superman percebe que era só questão de tempo para eles voltarem, e ter 3 Supermen do Mal era demais para o mundo, então ele mata os 3 com kryptonita. Assistam também o filmeSuperman II (1980) no qual encontrarão citações deste arco. Aliás, gosto de lembrar que, apesar de acharmos o Batman mais “malvado” que o Super, na história oficial este já matou enquanto o Batman nunca matou ninguém… por enquanto.

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Após a era Byrne foram necessárias algumas pequenas mudanças. Só a título de curiosidade, após Byrne o Super se exilou no espaço (chateado por ter matado a galera), criando o arco fabuloso do Superman gladiador que encontra o terrível, sórdido e amarelo Mongul! Esta fase foi incrível! Eu peguei essa época do Super e não parei mais de colecionar (Planeta Hulk o escambau!).

Enfim, tudo o que lemos hoje tem um dedinho da Era Byrne, e apesar de muitos roteiristas nostálgicos tentarem trazer vários fatores da Era de Ouro (como a volta de Krypto, o visual dos trajes kryptonianos, o Superboy) muitas “regras” de Byrne se mantêm, como sua origem, a ideia do Sol Vermelho e outros fatos mesclados à  biologia kryptoniana.

A MORTE DO SUPERMAN

morte_super-homemUma coisa que não posso deixar de falar. No início da década de 90 a revista do Superman possuía pouca repercussão. Sendo direto, andava mal das pernas. Então a equipe de Dan Jurgens e o editor Mike Carlin tiveram a brilhante ideia de matar o herói. Simples assim.

A história foi muito boa, apesar de que não foi Lex Luthor ou qualquer outro inimigo conhecido do Super que o matou, e sim um monstro chamado Apocalypse (isso é bem chato… imagina a raiva do Lex após ter tentado isso por muitos anos só para depois um bicho, do nada, conseguir), a história ganhou repercussão mundial, fascículos especiais e a minissérie “Funeral para um Amigo”. Quando eles encheram o bolso de dinheiro pensaram: “O que fazemos agora? Ressuscitamos ele!”.

Para mim, este é um marco, as pessoas se sentiram enganadas e nunca mais foi creditado uma morte definitiva para um super-herói. Superman não só derrotou Apocalypse, ele derrotou a Morte. Todos sabem que “morte” em quadrinhos significa só “período de limbo” para o personagem. É como uma porta giratória.

REBOOT!

E por fim chegamos ao Reboot dos Novos 52! Este é apenas um resumo para você ficar por dentro, então não fique zangando com meus “saltos temporais”.

Então, o que aconteceu? Bom, nos quadrinhos Flash zuou toda a linha do tempo e, ao tentar arrumar a bagunça, acabou criando um universo “quase lá” de como era antes, arrancando a cueca de todos os “supers” e deixando a Vertigo sem revista (além de sumir com Donna Troy, acabar com a fase Flash-Wally e matar Oráculo).

manofsteelsupermannew52O que mudou? Bem, como eu disse, as cuecas por fora da calça (clássico) sumiram, e acredito que um dia sumirão as roupas de collant. Quem assistiu ao filme Homem de Aço(2013) percebeu que nosso herói já está com o visual Novos 52.

E o estilo do Super também mudou, se tornondo mais badass, mais “modafoca”, uma coisa mais real. Além disso, a fase Superboy retornou, bem como outros vilões. Na verdade, sendo sincero, tá uma zona. É como se tudo o que eu já li tivesse acontecido, mas de uma maneira diferente, logo você não tem mais certeza nenhuma das histórias antigas. Outro dia um amigo meu me perguntou “Quem é esse personagem?” e eu “É o Superciborgue, que apareceu após a morte do Superman pelo Apocalypse quando… bem, na verdade a morte não aconteceu… ou aconteceu num passado… agora o Superciborgue é o pai da Supergirl… e, bem… o Apocalypse também pode ter ou não aparecido… ahhh, sei lá!”. Ou seja, se você nunca leu nada do Superman, esta é sua oportunidade, pois não perdeu nada. E se você sempre leu, bem… vai ficar confuso agora, mas continue lendo para ver o que mudaram, ou não… é quase um gato de Schrödinger. Fico pensando se os leitores veiacos se sentiram assim no mundo pós “Crise das Infinitas Terras”…

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